O cargo de selecionador de Inglaterra está novamente no centro do furacão. Após a dolorosa derrota frente a Argentina por 2 x 1 no Mundial, multiplicam-se as vozes na imprensa britânica que exigem o despedimento de Thomas Tuchel e a contratação de um técnico com passaporte inglês. O nome de Pep Guardiola tem sido fortemente apontado, mas há quem defenda de forma irredutível que a nacionalidade tem de ser o fator decisivo.
A Crise de Tuchel e a Sombra de Guardiola
A seleção dos Três Leões caiu nas meias-finais do Campeonato do Mundo frente à Argentina (2-1), em Atlanta, e o atual selecionador, Thomas Tuchel, tem sido o principal alvo das críticas. Apesar de a equipa ter estado em vantagem, as decisões táticas do técnico alemão durante o colapso na segunda parte deixaram o seu lugar em risco.
É neste cenário de incerteza que surge o nome de Pep Guardiola. O catalão, que deixou o Manchester City após um trajeto histórico — seis títulos da Premier League em dez épocas —, é visto por muitos como o candidato de sonho. Curiosamente, Guardiola chegou a ter um princípio de acordo com a federação inglesa (FA) em 2024, após a saída de Gareth Southgate, mas acabou por recuar na altura para assinar uma extensão de contrato com o City.
O Argumento Patriótico: A Lição da História
Para Rory Jennings, conhecido coapresentador da rádio britânica talkSPORT, a ideia de entregar a equipa a mais um estrangeiro, por mais brilhante que seja o seu currículo, é um erro crasso.
“Quão patriota podes ser quando tens um treinador alemão?”, atirou Jennings no programa World Cup GameDay Live, assumindo que Tuchel deverá mesmo manter-se no cargo. “Quanto patriotismo consegue um alemão incutir numa equipa inglesa?”
O comentador recorreu aos dados históricos para fundamentar a sua posição, lembrando que o sucesso internacional exige uma ligação emocional profunda:
- Zero vitórias estrangeiras: Em quase 100 anos de história de Campeonatos do Mundo, nenhuma seleção conseguiu erguer o troféu orientada por um treinador de outra nacionalidade.
- O “Fator Ancelotti”: Jennings usou o exemplo do Brasil, que tentou contornar a tradição neste mesmo torneio com Carlo Ancelotti no comando, acabando por ser eliminado “sem glória”.
“Prefiro o Lampard ao Guardiola”
Durante o debate, o ex-jogador da Premier League, Jamie O’Hara, validou a importância da paixão nativa, apontando para o banco da seleção argentina e para o comportamento de Lionel Scaloni (que somou sete internacionalizações pela Argentina enquanto jogador).
“Quando a Argentina marcou o segundo golo, parecia que o Scaloni ia chorar de emoção. A paixão apoderou-se dele”, notou O’Hara. “Eles jogam para ganhar a todo o custo; a derrota não é uma opção. Talvez nós [Inglaterra] sejamos demasiado brandos.”
A discussão atingiu o ponto de ebulição quando O’Hara confrontou o colega: escolheria Frank Lampard, atual treinador do Coventry City, em vez de um ícone mundial como Pep Guardiola? A resposta de Jennings foi perentória:
“Nestas circunstâncias em concreto, teria de ser o Lampard, simplesmente porque tem de ser um treinador inglês.”
“Apenas os da casa entendem a nação”
Consciente da polémica gerada pela sua afirmação, Jennings fez questão de clarificar que não estava a comparar a qualidade técnica de ambos, admitindo considerar Guardiola o segundo melhor treinador do planeta (apenas atrás de Luis Enrique). O foco, argumenta, está na mentalidade:
“Há um conjunto muito particular de competências que são necessárias para o futebol de seleções e que, simplesmente, não podes ter a menos que entendas a nação. No fundo, o Thomas Tuchel deve ter ficado mais chateado quando o Paraguai eliminou a Alemanha do que quando nós perdemos com a Argentina.”
Resta agora saber se a Federação Inglesa de Futebol vai ceder à pressão pública e voltar a apostar num técnico “da casa”, ou se manterá a confiança no projeto internacional de Tuchel rumo aos próximos desafios.