Para qualquer jogador profissional, o banco de suplentes é um lugar frustrante. Seja um atleta a recuperar o ritmo após uma lesão ou uma jovem promessa a aguardar a sua oportunidade, ficar de fora resume-se a uma espera ansiosa por uma brecha ditada pelo cansaço ou infortúnio de um colega.
Contudo, na esmagadora maioria dos bancos, senta-se um profissional que vive uma realidade muito mais extrema: o guarda-redes suplente. Conscientes de que a sua entrada em campo depende quase exclusivamente de um imprevisto (como uma lesão grave ou expulsão do número 1), muitos destes atletas preparam-se para passar uma época inteira a aquecer o banco. Afinal, como se lida com a vida na sombra?
O Mito do “Lugar Confortável”
Steve Harper, que passou largos anos como suplente de Shay Given no Newcastle, desfaz a ideia de que estar no banco é sinónimo de acomodação. “As pessoas achavam que eu estava feliz ali sentado. A verdade é que não estava”, confessou.
Apesar de um duro período de cinco anos (a partir de 2001) em que foi quase exclusivamente segunda opção, Harper olhava para o cenário de forma pragmática: preferia o peso de fazer 199 jogos perante 52 mil adeptos do que jogar o dobro das vezes num emblema de menor dimensão e exigência.
Heróis de Bastidores e Colecionadores de Títulos
Não raras vezes, os guarda-redes suplentes transformam-se em figuras carismáticas, conquistando o respeito profundo dos adeptos e assumindo-se como parte da mobília do clube.
Remy Vercoutre é um exemplo claro. Antes de rumar ao Caen, passou mais de uma década no Lyon durante a era de ouro do clube, onde conquistou cinco campeonatos franceses. Viu vários guarda-redes passarem pela titularidade e apenas assumiu a baliza como número 1 numa das suas doze temporadas. Em 2010, assumiu a sua escolha sem complexos: preferiu a estabilidade e a vivência de grandes jogos em estádios lotados, em vez de arriscar uma transferência que pudesse afundar a sua carreira.
Noutros casos, é o peso de uma lenda que obriga ao papel de suplente. Stefan Wessels foi a sombra de Oliver Kahn no Bayern de Munique (1999-2003). Embora reconheça o protagonismo de Kahn na conquista da Liga dos Campeões de 2001, Wessels lembra que o troféu também é seu, atirando que “99% dos profissionais teriam inveja” do seu percurso.
Já o holandês Raimond van der Gouw tomou a decisão consciente de assinar pelo Manchester United aos 32 anos, mesmo sabendo que tinha a montanha Peter Schmeichel pela frente. O objetivo? Aprender. “Foi incrível ver como ele se preparava e se concentrava. É algo vital a este nível”, recordou. Embora desejasse ter somado mais minutos, sempre se sentiu uma peça integrante do sucesso da equipa.
O Peso do Esquecimento e o Teste Mental
Apesar da lealdade aos clubes, a posição cobra um preço psicológico elevado. Harper não esconde os momentos de provação durante os cinco anos em que somou apenas dois jogos na Premier League, destacando o apoio fundamental da família e da estrutura do clube para não ir abaixo.
Stuart Taylor, que após despontar no Arsenal passou a carreira como alternativa em vários emblemas ingleses, espelha bem essa dor invisível. “Sentes que desapareceste do radar. Se não jogas, as pessoas esquecem-se de ti e rotulam-te como um guarda-redes de segunda linha. Isso magoa quando sabes que tens qualidade para fazer o trabalho. Foi um teste mental muito duro.”
Os Mentores do Balneário
A longevidade natural da posição permite que muitos destes atletas prolonguem as carreiras até aos 40 anos. Essa vasta experiência transforma-os, invariavelmente, nos grandes conselheiros do balneário.
Para Steve Harper, orientar os mais novos tornou-se uma missão. Sem qualquer arrependimento, admitia que a sua natureza o impelia a ajudar e que, ao deitar a cabeça na almofada, o sentimento de ter impulsionado a carreira de um jovem compensava as adversidades.
No fim de contas, sobreviver a esta posição exige uma enorme inteligência emocional e uma “casca” grossa contra críticas. José Manuel Pinto, que foi o carismático suplente de Víctor Valdés no Barcelona, resume com perfeição a mentalidade blindada de um número 2:
“Eu não ligo minimamente ao que os outros pensam. Só eu sei se podia ter feito mais ou menos. Afinal, as opiniões são como os traseiros — toda a gente tem um, não é?”
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