As vivências e as ideias do treino/ jogo de Ricardo Pereira sobre os guarda-redes

Ricardo Pereira na primeira pessoa: “Contínuo apaixonado pelo treino e desenvolvimento individual dos GRs”

Em entrevista a Tobias Schlitzke e Torwart Magazin da Torwart Magazine, (ver aqui o projecto) , Ricardo Pereira – actualmente “Head” da Academia de guarda-redes no Nottingham Forest – falou da sua experiência em Inglaterra e também de algumas das suas bases de trabalho no dia a dia e também parte da sua filosofia de treino.

TM: Actualmente és “Head” da Academia de guarda-redes no Nottingham Forest. Podes descrever as tuas funções?

RP: As minhas funções são, em traços gerais, a coordenação de todo o processo de treino de Guarda-redes da academia do Nottingham Forest.

De uma forma mais especifica sou responsável pelo trabalho direto com os Guarda-redes mais velhos da Academia (U23 e U18), pela definição da metodologia de treino de Guarda-redes do clube em todas as faixas etárias, definição do perfil de Guarda-redes que o clube deve procurar em termos de scouting, pelo acompanhamento do trabalho dos restantes Treinadores de Guarda-redes e pela organização do Departamento de Guarda-redes do clube.

Este trabalho todo tem como principal objetivo o desenvolvimento de Guarda-redes com capacidade para representar a equipa principal do Nottingham Forest Football Club.

Procuramos, simultaneamente, desenvolvê-los enquanto pessoas e enquanto praticantes de futebol, dotando-os de conhecimentos técnicos e táticos sobre o jogo que lhes permita crescer e jogar de uma forma desinibida, com confiança e competência.

O nosso papel social e educativo é algo muito presente na filosofia do clube e do departamento. Procuramos ajudar a sonhar com um futuro no futebol profissional, mas também a gerir expectativas de Guarda-redes de diferentes idades, diferentes nacionalidades, estejam a jogar connosco ou na situação de empréstimo.

Todas estas tarefas fascinam-me e abracei este desafio com muita paixão, dedicação e prazer.

TM: Qual é a tua própria filosofia de treino e como está alinhada com a tua personalidase e com a do clube?

RP: É uma pergunta interessante porque a filosofia de treino e a forma como comunicamos as nossas ideias, para mim, só têm impacto quando somos genuínos e levamos para o campo a nossa verdadeira personalidade e maneira de estar no desporto e na vida.

E a verdade é que eu sou uma pessoa com muita energia, obcecada pela perfeição, por estudar os detalhes, por investigar os problemas sob várias perspetivas e campos de saber, por transmitir serenidade em momentos de elevada pressão, mas também conhecido por transmitir as minhas ideias de uma forma apaixonada e com feedbacks expressivos e emotivos.

Standard Liege: @Fred Moisse

Porém o futebol enquanto desporto coletivo, traz a cada um de nós enormes desafios do ponto de vista da nossa capacidade de adaptação.

Quando sou contratado por um clube ou por um Treinador, não levo apenas a minha metodologia, tenho de levar também a capacidade de me adaptar à Filosofia de um clube e às ideias desse mesmo Treinador.
Não estarei a ser leal com quem me contrata se não treinar os Guarda-redes para responderem em campo às necessidades da equipa. Não estarei, igualmente, a ajudar os Guarda-redes se utilizar o nosso tempo de treino a treinar coisas que o jogo coletivo da equipa não lhes vai requerer.

O fascinante do meu trabalho com os Guarda-redes é que continuarei a ter liberdade e responsabilidade na escolha do COMO TREINAR.

Explico de seguida alguns dos aspectos que me levaram à construção de uma Filosofia e Metodologia de Treino que está em constante análise e adaptação face ao contexto:

  • OBSERVAÇÃO – A minha filosofia e, por conseguinte, a metodologia de treino decorre de centenas de horas a observar, a decompor o jogo em sub- momentos, a observar os melhores Guarda-redes do mundo, a analisar as fragilidades dos meus Guarda-redes, a tentar perceber porque acontecem golos e como posso ajudar a evitar esses golos;
  • PADRÕES DE COMPORTAMENTO – Depois de observar obsessivamente, muitas vezes frame por frame, descubro padrões de comportamento que me transmitem aquilo que é cada Guarda-redes no momento presente, o seu conhecimento do jogo, como interpreta, como decide e como executa. É do conjunto de interpretações, decisões e ações motoras no presente que tento compreender o que tenho nas mãos e aquilo que posso fazer para o ajudar no presente e no seu futuro.
  • DETALHE – Enquanto profissional eu tenho obrigação de olhar para o detalhe, porque, em futebol, e especificamente no caso dos Guarda-redes a diferença entre uma ação bem-sucedida e uma falha passa sempre por um posicionamento inicial, por uma antecipação/interpretação das possibilidades do adversário, frequentemente por um deslocamento, por uma decisão, por um posicionamento final e depois por uma execução que deverá ser perfeita;
  • PRATICAR PARA DECIDIR – As neurociências ensinam-nos que a prática sistemática de situações similares às que vamos encontrar em competição nos ajudam a reconhecer, interpretar, decidir e reagir de forma mais rápida. Esta é uma das bases da minha filosofia de treino. Os meus exercícios procuram refletir uma enorme semelhança com as diversas situações que o Guarda-redes pode encontrar no jogo e com o tipo de decisões que terá de tomar.
  • REPETIR PARA AUTOMATIZAR – Os gestos motores que o Guarda-redes executa têm um elevado grau de complexidade e coordenação, e deverão ser executados no tempo e espaço adequados. É isto que define, normalmente, o sucesso ou insucesso. O trabalho do Guarda-redes é “controlar o incontrolável”, isto é, um objeto esférico, projetado por vezes a mais de uma centena de Km hora e que muda de trajetória e velocidade várias vezes até chegar à zona de contacto com o Guarda-redes. Como profissional, eu acredito muito na repetição sistemática e exaustiva de todos os gestos técnicos que vão ser requeridos ao Guarda-redes porque isto lhes dá a tranquilidade e a confiança para os executar de forma automática em jogo.
  • DESAFIO E PLANOS INDIVIDUAIS – Eu detesto zonas de conforto! Sinto sempre que posso desafiar os limites do Guarda-redes até ao inimaginável. Ganhar jogos e não sofrer golos serve para aumentar níveis de confiança, mas não é suficiente para evoluir, desafiar e elevar fasquias. Sou um defensor dos planos individuais de desenvolvimento onde cada Guarda-redes saiba para onde caminha. Porque os 3 ou 4 Guarda-redes da equipa, têm normalmente necessidades, idades, volume de jogo e morfologias completamente diferentes. Por isso, cada Guarda-redes, durante a semana, deverá ter vários momentos de desenvolvimento específico e individual que lhe permita sentir essa atenção individualizada e melhorar aspectos que lhe vão beneficiar o rendimento. O 3º e 4º Guarda-redes da equipa têm de sentir que não estão a perder tempo ou não são um mero número;
  • COMUNICAÇÃO E FEEDBACK – Enquanto Treinadores de Guarda-redes trabalhamos com seres humanos e transmitimos informações; desenvolvemos um processo de ensino-aprendizagem através de análise do exercício, do feedback, de conversas e de vídeos. Tudo isto só é possível se a nossa comunicação for eficaz, assertiva, direta, no timing correto e tiver um report correto com o nível de compreensão do atleta. Quanto mais eficaz for a nossa comunicação com o atleta e mais preciso for o nosso feedback mais próximos estaremos do sucesso. O exercício mais fantástico fica vazio sem uma intencionalidade bem definida, sem a devida compreensão da parte do atleta sobre os “porquês” e sem o feedback/correções precisas. Considero, igualmente, fundamental na minha filosofia o feedback dos atletas que treino, tal abertura na relação dá-me indicações muito precisas sobre o seu nível de compreensão, satisfação, bem-estar e dificuldades;
  • RELAÇÃO – Deixei para o fim, mas poderá ser o fator mais decisivo para o sucesso da minha filosofia e metodologia. Uma relação assente na cumplicidade, confiança, na assertividade, na partilha, no suporte e na exigência potencia o sucesso do trabalho efetuado com o atleta. Quando conquisto a confiança de um atleta através das minhas qualidades humanas e competências profissionais consigo levá-lo a acreditar em mim e nas minhas ideias com muito maior facilidade. A partir daí posso levá-lo comigo numa viagem sem limites que potencie o seu desenvolvimento, mantendo-o motivado e a acreditar naquilo que está a fazer.

 

Standard Liege with Ochoa by @Fred Moisse

Um projeto como este que me foi proposto constitui um desafio apaixonante porque senti que havia uma grande empatia entre o que o clube pretende e aquilo que são as minhas ideias relativas ao “jogar do Guarda-redes”.

O Nottingham Forest e eu pretendemos Guarda-redes com personalidade que saibam construir eximiamente o jogo a partir da 1ª fase de construção, curto ou longo, por dentro e por fora e quebrando linhas sempre que possível; Guarda-redes que cubram o espaço deixado nas costas de uma linha defensiva subida e pressionante; Guarda-redes que resolvam problemas com a bola no espaço em situações de cruzamentos e 1V1; E guarda-redes que sejam ágeis, explosivos e competentes tecnicamente a parar remates à baliza.

Em síntese, queremos desenvolver Guarda-redes inteligentes, que entendam o jogo, competentes tecnicamente, que estejam completamente identificados com “o jogar” praticado pelas equipas da Academia do Nottingham Forest e que tenham personalidade para superar momentos difíceis e saibam comandar os seus companheiros em campo.

TM: Como é o teu dia-a-dia?

RP: À boa maneira Inglesa começa muito cedo e com ovos mexidos e feijão! Às 7h já estou muitas vezes na Academia. O Staff dos U23 e U18 reúne normalmente às 8h, discute e ajusta o programa para o dia, os planos de treino, quais os jogadores disponíveis para o treino (lesionados, integrados na 1ª equipa, que jogadores emprestados treinam nesse dia, etc.).

Trabalho com os Guarda-redes das equipas de U23 e dos U18 em grupos separados, e trabalho ainda com um Guarda-redes que deixou de estar integrado na equipa principal mas está sob contrato e com um que está emprestado mas treina diariamente connosco. Acompanho naturalmente o treino deles quando estão em treino integrado com a equipa.

Após o treino da manhã, que para mim significa pelo menos 2h30 no campo, como alguma coisa e preparo-me para o treino da tarde (é muito comum aqui termos sessões bi-diárias).

Depois desta sessão acompanho o trabalho de ginásio das equipas de U18 e U23 e de seguida início a análise de vídeos, podem ser de treinos, clips individuais de jogos, etc. Por vezes, ainda faço análise individual com os Guarda-redes de ações específicas em termos táticos ou técnicos.

Nesta 1ª fase, termino o meu dia com uma observação dos escalões mais jovens e do trabalho dos meus colegas Treinadores de Guarda-redes no sentido de ter uma ideia muito clara e precisa sobre os Guarda-redes que temos e a metodologia de treino atual, antes de desenvolver o Departamento de Guarda-redes. É como um diagnóstico da situação do presente para desenvolver linhas seguras para o futuro.

Para ser verdadeiramente inglês janto às 18h ou 18h30 e deito-me por volta das 22h.

TM: É díficil para vocês conseguir descobrir bons guarda-redes jovens em Inglaterra?

RP: Eu acho que é bastante difícil e competitivo conseguir bons Guarda-redes no nosso caso porque competimos com vários Clubes num raio de ação de poucos Quilómetros. Não é fácil mesmo para um clube como o Nottingham Forest que é um grande clube nesta zona geográfica conseguir Guarda-redes com o perfil que procuramos.

Por isso torna-se muito mais eficaz desenvolver a nossa metodologia e aperfeiçoá-la, formando bem os nossos Treinadores de Guarda-redes e Scoutings e atrair os Guarda-redes ainda muito jovens para o nosso clube, porque depois tendo connosco Guarda-redes com o perfil físico e psicológico próximo do que pretendemos acredito que com o nosso trabalho, dedicação e paixão os podemos desenvolver com qualidade.

TM: Em que medida usas treino mental no teu trabalho?

RP: A minha formação é em Psicologia Clínica, área na qual sou licenciado. Todavia para o campo, não vai o Psicólogo, mas sim o Treinador de Guarda-redes Ricardo Pereira. Ou seja, nós não podemos “despir a nossa pele”, mas eu “esqueço-me” frequentemente que sou psicólogo porque no campo não é essa a minha função.

Agora, não posso negar que as competências nesta área estão dentro de mim e que me ajudam na relação com os Guarda-redes, na leitura de sinais não verbais, na forma como ajudo a lidar com os momentos de maior pressão para o Guarda-redes, entre tantas outras coisas.

É algo que faço de forma inconsciente, mas naturalmente assente em conhecimentos da área da Psicologia. Por vezes a própria escolha de determinados exercícios tem como principal objetivo despertar estados emocionais no Guarda-redes (em momentos muito específicos) tais como aumento da confiança, desafio, concentração, etc.

O meu treino engloba a parte mental como um componente natural do exercício quando trabalho a tomada de decisão, quando trabalho a velocidade de reação, a tolerância à frustração, a capacidade de reagir ao erro, a antecipação mental do que vai acontecer em cada momento do jogo. É algo que deve estar presente no treino como está o trabalho tático e técnico.

Vou-lhe dar outro exemplo, o aquecimento de jogo, para mim enquanto treinador de guarda-redes não é mais que uma ativação física e mental para o jogo. Não é relevante em si a escolha dos exercícios, mais relevante são as sensações corporais/mentais que o Guarda-redes tira destes momentos prévios a entrar em campo para jogar. E nós, enquanto treinadores de guarda-redes, estamos ali apenas para ajudar o guarda-redes a sentir as emoções que melhor o preparam para jogar. E este sentir da nossa parte tem um conjunto de competências mentais como a empatia, a intuição, a sensibilidade, o conhecimento da personalidade do guarda-redes, etc.

A pergunta é: Precisamos ser psicólogos para sentir e providenciar estas sensações? Claro que não!!!! Precisamos de ser atentos e dedicados ao nosso guarda-redes; ajuda-nos termos jogado naquela posição alguns anos e ajuda sobretudo “vivermos para os nossos guarda-redes”, ou seja, eles são o nosso foco, acima do nosso próprio sucesso ou visibilidade estão eles próprios. Vivemos para os Guarda-redes e isso significa estar na sombra deles.
No treino lideramos nós!!! No jogo eles são as estrelas, os intérpretes, os artistas e a única coisa que nos preocupa.
Eu pessoalmente não faço treino mental em termos formais porque defendo que esse treino deve ser realizado por Psicólogos do Desporto de uma forma sistemática e consistente para obter os resultados pretendidos.

TM: Usas muitas vezes o vídeo no teu trabalho?

RP: O vídeo é uma ferramenta indispensável para todos nós nos dias de hoje e eu uso-o diariamente.
Uso o vídeo para analisar treinos e ver coisas que não vi no campo enquanto executava o exercício. O que faço com isto? Posso mostrar ao Guarda-redes e tornar algo consciente para ele (um posicionamento, uma ação técnica, uma posição corporal), posso usar para construir novos exercícios, posso utilizar para dar feedback da próxima vez que acontecer (quando é padrão de comportamento), posso usar para questionar porque decidiu daquela forma, posso usar para reforçar êxitos em algo que estamos a trabalhar em conjunto para melhorar, etc.
Utilizo para scouting de Guarda-redes e para ter uma lista atualizada por idades, nacionalidades, características, etc.
Uso para observação de adversários, nomeadamente as fragilidades dos Guarda-redes que vamos defrontar e aquilo que enquanto equipa podemos explorar, uso ainda para tentar descobrir alguns padrões de comportamento dos jogadores que vamos defrontar, não apenas para as bolas paradas, mas outras tendências comportamentais.
E uso naturalmente para uma análise do jogo do meu Guarda-redes, analisando todas as ações diretas e indiretas, os seus posicionamentos, ações, decisões, reações, etc. Tudo me transmite indicações precisas para a semana de treinos em termos da sua gestão fisiológica, emocional, técnica e tática.

Todavia o vídeo apenas ajuda a complementar aquilo que deve ser fundamental e é insubstituível: qualidade de exercícios de treino; feedbacks atempados com indicações simples curtas e precisas; transmissão de emoções nesses feedbacks seja para elogiar ou criticar; treino que automatize comportamentos e ações técnicas; exercícios suficientemente abertos que estimulem a tomada de decisões similares às que vão ocorrer em jogo.

TM: No Reino Unido existiram muitos problemas durante anos em trazer novos, e bons, talentos para a baliza. Agora isto está a mudar. Sentes estas diferenças no foco na posição de guarda-redes?

RP: É uma pergunta difícil de responder para quem chegou há tão pouco tempo a Inglaterra. Não vou fugir a ela mesmo correndo o risco de ser um pouco injusto.
Sinto que se valoriza o treino do Guarda-redes, nomeadamente da parte dos Managers e restantes Treinadores. E sinto que há pessoas a treinar com qualidade naquilo que é a sua ideia para o treino de Guarda-redes.
Penso que aqui se exige aos Guarda-redes que sejam realmente muito competentes naquilo que o futebol moderno lhes pede, bom jogo de pés e controlo de espaços à sua frente.
Fui positivamente surpreendido pela qualidade da distribuição com os pés dos Guarda-redes em Inglaterra, estão a um nível muito interessante o que demonstra o investimento dos Treinadores de Guarda-redes nesta matéria.
Igualmente em termos de controle de profundidade tive uma boa surpresa na maioria dos Guarda-redes, procurando jogar bem subidos no terreno e decidindo globalmente bem.
A qualidade técnica parece-me consideravelmente boa ao nível da pega de bola.
Claramente me parece que as situações de queda e voo, 1V1 e cruzamentos são áreas fundamentais e que devem ser melhoradas ao nível do treino.
Em jeito de conclusão, valoriza-se o treino de Guarda-redes, os Managers respeitam o nosso trabalho e os Treinadores de Guarda-redes estão a trabalhar bem em algumas das áreas acima enumeradas.
Pode-se melhorar ao nível das situações de queda lateral e voo, do 1V1, dos cruzamentos e da qualidade de decisão, mantendo um treino técnico até uma parte da sessão, mas depois “abrindo-o” para uma forma de decidir e jogar que vai ser requerida no jogo.

TM: Estiveste um ano no Legia Warszawa. Como foi esse tempo e como vês o guarda-redes polaco em geral?

Legia.

RP: Foi uma época extraordinária para mim enquanto Treinador de Guarda-redes uma vez que trabalhei com excelentes profissionais, fossem os GR da primeira equipa fossem os jovens da Academia. O Guarda-redes Polaco tem uma mentalidade e uma capacidade de trabalho incrível. A este nível foi um casamento perfeito porque eu adoro treinar com intensidade, levando por vezes o corpo dos atletas aos seus limites.
E o Guarda-redes Polaco parece não ter limites para trabalhar!!!
Claramente que precisam de melhorar a sua capacidade de jogar com os pés e a sua compreensão do jogo. Por vezes sinto-os muito fechados num modelo de jogo e com pouca capacidade de adaptação a novos modelos de jogo o que lhes cria algumas dificuldades de adaptação nos primeiros tempos por exemplo fora da Polónia.
Todavia são trabalhadores, corajosos, querem dominar o jogo aéreo assumindo riscos e responsabilidades.
Sou apaixonado pelo Guarda-redes Polaco!!! Trabalhei com 5 Guarda-redes no Legia Warszawa e confesso que qualquer um deles me deixou marcas para a vida, grandes lições, e um desafio permanente sobre como tirar rendimento de Guarda-redes tão distintos.
Trabalhei com 2 jovens na Polónia que se forem bem acompanhados poderão ser o futuro da seleção Polaca. (Radosław Majecki e Cesary Mistza) E trabalhei com um excelente Guarda-redes e um ser humano extraordinário chamado Radosław Cierzniak que me marcou muito pelo colega e “mestre” que sabe ser para os Guarda-redes mais jovens.
Quero aqui fazer justiça aos Treinadores de Guarda-redes Polacos, uma vez que mesmo os que ainda trabalham de uma forma mais analítica e fechada têm o dom de produzir Guarda-redes extraordinários em termos de capacidades atléticas, mentais e técnicas. Quando conseguimos ajudar o Guarda-redes Polaco a decidir melhor, jogar com os pés com maior risco e a ser mais audaz no seu posicionamento estamos na presença de uma das melhores escolas do mundo.
Finalizo acrescentando que a Polónia está a produzir uma nova vaga de Treinadores de Guarda-redes extraordinária que está a aliar as coisas boas do passado a um treino mais aberto e mais táctico. Há muita qualidade na Polónia ao nível dos jovens Treinadores de Guarda-redes.

TM: Estiveste muito tempo no SL Benfica, num país (Portugal) com boa tradição em formar guarda-redes. Qual é o motivo para isso?

RP: Em primeiro lugar quero afirmar que os 5 anos que passei no Benfica foram de enorme enriquecimento pessoal e profissional. Trabalhei com Treinadores extraordinários e por isso não fico surpreendido com o número de talentos que o clube produz. Tenho orgulho e estarei sempre grato pela oportunidade que tive de servir o clube durante tantos anos.
Relativamente a Portugal, devemo-nos orgulhar para sempre de Guarda-redes que mesmo não tendo condições atléticas perfeitas (nomeadamente em termos de estatura) foram Guarda-redes extraordinários como Costa Pereira, Carvalho, José Henriques, Manuel Bento, Vítor Damas, entre muitos outros. E foram-no quase por geração espontânea, pela sua capacidade de trabalho, a sua intuição, o seu talento. Porque não tinham treino específico de Guarda-redes. Foram eles curiosamente anos depois a dar início ao trabalho específico de Guarda-redes em Portugal, em conjunto com o meu ídolo de infância o Polaco Józef Młynarczyk.
Depois existiu um monstro sagrado chamado Vítor Baía que teve uma carreira muito bonita com inúmeros títulos conquistados a que se seguiram Guarda-redes como Ricardo Pereira (não sou eu), Paulo Santos, Quim entre outros que já beneficiaram dos primórdios do desenvolvimento do Treino de Guarda-redes em Portugal.
E por fim uma geração encabeçada por Rui Patrício, Eduardo, Beto entre muitos outros que claramente tiveram treino específico de qualidade nos seus clubes em Portugal e no estrangeiro.
Temos actualmente muitos jovens na calha mas que precisam de oportunidades para jogar, André Ferreira, Bruno Varela, Diogo Costa, Tiago Sá, José Sá, Joel Pereira, Maximiano, João Virgínia, tantos e tantos jovens Portugueses.
Confesso-lhe a felicidade de ter trabalhado com 2 jovens que hoje são titulares indiscutíveis em 2 grandes clubes, um na Bélgica e outro na Polónia, como são os casos do Arnaud Bodart (21 anos) e do Radosław Majecki (19 anos) e só eu e eles sabemos a dificuldade de ser 3ª ou 4ª opção, mas também do “trabalho invisível” que pode ser feito quando não são opção. Se a isto juntarmos a sua capacidade de trabalho, a sua resiliência, a sua inteligência e a coragem dos treinadores apostarem neles podemos ter Guarda-redes a jogar pela sua qualidade e não pela sua experiência. Por exemplo o Arnaud Bodart marcou-me muito pela forma como sempre acreditou que o seu momento havia de chegar e como soube aprender com Guillermo Ochoa (34 anos) e Jean-François Gillet (40 anos). O Arnaud chegou a ficar a trabalhar individualmente comigo durante 2 horas na véspera de jogar pela equipa B porque para ele nunca havia limites para a aprendizagem. Exigia-me sempre mais. Posso dizer que foi dos Guarda-redes que mais me “espremeu” e não jogou um único minuto oficial naquela época.
É isto que eu desejo que aconteça rapidamente com o Joel Pereira, com o André Ferreira, com o João Virgínia entre outros que não têm jogado regularmente.
Se me perguntar se existe uma escola de Guarda-redes Portuguesa, como existe a Alemã, a Italiana, a Brasileira, a resposta é não.
O que existe em Portugal é um conjunto de Treinadores de Guarda-redes já com muita experiência como são os expoentes máximos do Hugo Oliveira, do Rui Barbosa, do Jorge Vital, do Figueiredo, Ricardo Peres, do Nélson Pereira, do Luís Esteves, do Justino, do Silvino, etc. que têm feito muito pelo Guarda-redes Português e pelos jovens Treinadores de Guarda-redes Portugueses.
E depois existe um conjunto de pessoas a treinar em Portugal e no estrangeiro que são competentes, dedicadas, inteligentes, entre tantos outros temos Paulo Grilo, Rui Tavares, Luís Rodrigues, Vítor Silvestre, Daniel Correia, Pedro Pereira, Fernando Ferreira, Nuno Santos, César Gomes etc. Estas pessoas, entre outras que por lapso não enumerei, e a quem peço desculpa, estão em conjunto com uma vaga de Treinadores de Guarda-redes muito jovens a desenvolver um trabalho fantástico que trará frutos muito positivos.
Falta a Portugal um passo importante, que são os Cursos Oficiais de Treino de Guarda-redes, mas que nem isto tem impedido o desenvolvimento dos nossos Treinadores de Guarda-redes.
A Federação Portuguesa de Futebol tem um corpo técnico competente ao nível do treino de Guarda-redes, mas precisa de cobrir esta lacuna na formação dos seus Treinadores.
São eles os principais responsáveis pela formação de uma forma de treinar Guarda-redes em Portugal. Acabei de fazer um curso na Suíça e a metodologia de treino tem um cunho e uma filosofia própria. Cada Treinador de Guarda-redes depois fará as suas escolhas, mas eu saí da Suíça ao fim de 4 dias a saber como a Federação pensa o treino, o que devo fazer em treino e a identidade da “escola Suíça”.
Se me perguntar como treinam os Treinadores de Guarda-redes Portugueses, eu posso-lhe responder que somos excelentes “ladrões”!!!
Roubamos aos Italianos, Brasileiros a técnica, aos Espanhóis um pouco da tática, aos Alemães um pouco da capacidade física e formamo-nos como Treinadores.

Considero, numa opinião muito pessoal, que começamos por valorizar em excesso a tomada de decisão e o trabalho tático, mas que hoje estamos mais equilibrados, ou seja, procuramos trabalhar de forma consistente e equilibrada, a técnica e a capacidade atlética e não perdemos o nosso excelente conhecimento tático do jogo, ajudando o nosso Guarda-redes a ler o jogo, a saber posicionar-se e a decidir com qualidade. Estamos a caminhar para o equilíbrio!!!!

Podemos melhorar??? Muito!!! Temos qualidade??? Temos e vamos melhorar muito nos próximos anos. Assistir a uma formação de treino de Guarda-redes em Portugal (Seminários, Conferências) é sinónimo de qualidade assegurada. Temos ainda algumas páginas/sites específicos para analisar Guarda-redes que têm igualmente muita qualidade.

TM: Quem é o guarda-redes perfeito para ti? Foi o Manuel Neuer nos últimos anos?

RP: Neuer é um monstro!!!! Por vários motivos, pela sua capacidade física, explosivo, ágil e rápido. Depois pela sua capacidade de controlar as suas emoções mesmo nos maus momentos. Por fim pela sua capacidade de se reinventar! Com Guardiola, Neuer foi levado ao extremo da sua capacidade de adaptação, de inteligência específica, de risco e de concentração. Guardiola espremeu Manuel Neuer até aos seus limites e ele deu uma resposta inacreditável. Só alguém com muita capacidade trabalho e uma mentalidade fortíssima poderia mudar tanto a sua forma de jogar.
Não considero ser possível eleger o Guarda-redes perfeito porque nenhum pode ser completo ou perfeito. O que temos em Jan Oblak, Hugo Lloris e Gianluigi Buffon não encontramos em Ederson Moraes, Marc-André ter Stegen ou em Alisson por exemplo.
Adorei Petr Čech e Edwin van der Sar. Apaixonei-me por Peter Schmeichel, Michel Preud’homme, Józef Młynarczyk, Vítor Baía e Artur Moraes.

Hoje olho para eles não com o objectivo de descobrir a perfeição. Olho para eles como Guarda-redes de alto nível a quem quero “decompor” e analisar para descobrir como posso um dia ajudar a formar guarda-redes com a mesma qualidade.

Se ainda me apaixono pelos Guarda-redes ao fim de 8 anos a treinar!??? Sim, sim e sim. Só consigo treinar se estiver apaixonado pelo desenvolvimento de cada um deles. Quando existe sintonia perfeita entre o meu querer e o querer deles o tempo que passamos juntos é de enorme desenvolvimento pessoal e profissional de parte a parte.

Liege, @Fred Moisse

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