Na linha do perfil pretendido, Marchesin chega depois de ser o melhor no México. Mas o que vale?

Ao que parecem as notícias de hoje, e sabendo que já existiram imagens de Marchesin a chorar no treino com a equipa do Club América (México) depois de ser chamado pelo treinador. O guardião internacional argentino está a caminho do FC Porto e tudo aponta que irá assinar pelos valores que foram associados a Trapp e Koubek: 7M euros. E tem perfil idêntico, na altura e no estilo de GR que é…

E se calhar começamos por aqui para concluir o que depois desenvolvemos: é um valor muito elevado e põe em causa um projecto de guarda-redes como o de Diogo Costa. Mas, esquecendo isto, irá ter rendimento e dará garantias.

O jovem guardião português estava a aparecer (muito) bem na pré-época e a dar claros sinais que podia ter condições de assumir a baliza portista mesmo em tenra idade (19 anos). Contudo, depois de ser impedido de ser emprestado para ficar no plantel principal e onde já parece ter subido na hierarquia para o lugar então ocupado por Vaná, contraiu uma lesão no dedo da mão que o obrigou a ser operado. Em teoria estaria apto para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões 19/20 mas a direcção “azul e branca” foi mesmo assim ao mercado. Já tinham definido que iriam gastar até 7M por um novo guardião e depois de se falhar Koubek e Trapp, chega então o recém eleito melhor guardião da liga mexicana da época passada, Marchesin.

E este assina por 4 temporadas (ele que já tem 31 anos de idade). Na eventualidade de cumprir contrato… qual o papel entretanto de Diogo Costa? Será sempre uma boa alternativa e não uma solução principal? Esta gestão de expectativas, para não se perder uma promessa das balizas nacionais, tem de ser bem definida desde início, sob pena de se perder e não corresponder ao que prometia.

Voltando a Marchesin e o que vale mesmo…

31 anos de idade, 1.88m de altura e 4 vezes internacional A pela Argentina e recém convocado para a Copa América 2019. Foi eleito o melhor guardião (prémio que já repetiu) na liga mexicana da época que passou e nunca jogou na Europa, tendo “apenas” experiências na Argentina e México. Ligas competitivas mas que, em traços gerais, procuram guarda-redes que sejam mais reactivos ao invés de guardiões com maior raio de acção e tomada de decisão (antecipação, p.e). E nisto, defensivamente falando, ele é incrível, é um facto. Mas será apenas isso o exigido no FC Porto?

Marchesin tem um posicionamento geralmente alto para enfrentar remates de média distância. Posiciona-se quase no limite da pequena com todas as vantagens e riscos que isso acarreta. Não distingue bolas cobertas de descobertas, mantendo sempre a mesma base posicional. Todos os movimentos de reajuste que faz são laterais – mudança de lado da bola fazendo um “U” em linha -, sem saber quando, onde e como deve tirar (ou não) profundidade, por exemplo – movimento de recuo – para ganhar tempo na análise do lance e espaço para movimentos, permanecendo nos mesmos espaços por si previamente definidos. Contudo, é altamente eficaz nesta medida e ele destacava-se mesmo na defesa destes remates mais ou menos exteriores sendo dotado de uma boa capacidade atlética nos movimentos e acções defensivas. Sente muito conforto, por exemplo, em responder a remates com o pé ou cabeça após cruzamentos laterais que não impliquem uma saída sua no ar mas sim uma reacção a um remate… Porque no ar, não tem a maior das suas capacidades.

Tem uma agilidade, tempo de reacção e rapidez na baliza acima da média. Daqueles que muitas vezes valem um bilhete e podem fazer a defesa do ano a qualquer jogo… Procura ser eficaz nas acções, com mais ou menos capacidade técnica e atenção ao pormenor, estar equilibrado e estar sempre bem enquadrado entre a bola e a baliza. Defender e defender é o que ele mais aprecia no jogo, seja em remates de fora ou no 1×1. Tem muita competência/eficácia no momento defensivo. 

A origem de erros…

Muitos dos seus maiores erros são no jogo de pés, mas ele não tem nisto uma incapacidade. Ele tem qualidade técnica e sente-se confortável em jogar… mas por vezes o confortável converge com a displicência e a tomada de decisão (voltamos a tocar neste momento) é muito lenta. É um guardião que precisa de estímulos curtos e intensos para ter sucesso, tendo dificuldades quando o ritmo abranda e o seu número de acções por minuto reduz. E tudo se deve pela forma como muitas vezes se desfoca e deixa a sua confiança subir além da cabeça e tocar na displicência. Por vezes deixa que a emoção se sobreponha à razão… Corrigindo esse(s) pormenor(es), que é uma grande condicionante num GR na forma como se dá ao jogo e como se mostra aos colegas e adversários, pode crescer.

Constatações finais… 

Marchesin é um guarda-redes de qualidade. Mesmo com a inexperiência no contexto europeu, onde vai ser uma estreia, tem um vasto curriculum em ligas competitivas e em equipas de grande nível no contexto da América do Sul/Central. Será uma aposta ganha a nível desportivo e irá ter rendimento em Portugal, não temos dúvidas. É confiável em contextos defensivos e ofensivamente ainda pode crescer, basta ser estimulado (não pode no passado mostrar algo para o qual não foi/é estimulado…). Tem a mentalidade certa, sendo um líder de grande nível, apenas precisa de focar na simplicidade em todos os momentos do jogo (como é, por exemplo, no momento do 1×1) e transportar isso, para evitar erros e colocar a equipa em perigo), para tudo o resto. Será, com quase toda a certeza, uma peça chave da equipa de Sérgio Conceição que não exige ao GR acções muito complexas no jogo. Tem muitos predicados que podem gerar sucesso como já mencionado. Iker não tinha no jogo ofensivo uma grande capacidade e mostrou rendimento pela liderança, estabilidade, posicionamento e simplicidade das acções e competência na defesa da baliza. Com os devidos estímulos ganhou raio de acção e diversidade de acções para pensar o jogo de forma mais ofensiva… é uma questão de procura do estímulo e como é feito. Marchesin pode, e deve, crescer neste contexto no FC Porto.

O problema prende-se pela extensão do contrato (4 anos), quando existe um jovem guardião a aparecer e que muitos no clube/estrutura depositam grandes esperanças, pelo alto valor na contratação de um GR (7 milhões, no contexto português, é pouco comum, principalmente num guardião) e pela dificuldade de gerar mais valias financeiras futuras, percebendo nós que esta poderá não ser uma prioridade mas sim gerar rendimento desportivo imediato (do qual concordamos que poderá ter).

Se nos esquecermos de tudo isto e olhar apenas para o GR, irá ter rendimento e irão gostar de ver (os adeptos do clube e, além dos mesmos, os adeptos de futebol), pois é um guardião entusiasmante, vivo e vibrante. É um guardião na linha do seu antecessor, Iker Casillas, diferenciando a parte de estatuto que tudo isso acarreta e é benéfico individualmente se bem aproveitado. Vale o bilhete pela forma como age em campo e pela conexão que cria com as bancadas. E por falar em defesas… ora vejam as suas melhores defesas:

Esta foi a sua defesa que ajudou – e muito – à conquista da Liga Mexicana (ver aqui)

PS: não é mau a defender penaltis também..

Por Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira

 

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