Desde 2018, o Sporting CP venceu 6 (!) desempates por penaltis. Sorte ou… trabalho?

3 com Rui Patrício na baliza, em 2017/18, outras 3 com Renan Ribeiro em 2018/19. 4 na Taça da Liga, todas elas na final-four, e duas na Taça de Portugal – meias finais na época passada e no sábado na final. 4 desempates ganhos ao FC Porto, dois em cada época, um ao Vitória FC (ano passado) e outro ao SC Braga (esta época).

Mas se recuarmos atrás de 2018… são 7 desempates seguidos por penaltis a ganhar para o Sporting. A anterior a 2018 foi na final da Taça de Portugal, com Rui Patrício, contra o Braga. Incríveis dados…

Os números…

Avaliando individualmente por números, eis o número de tentativas por época e guarda-redes, e a sua taxa de sucesso e o lado da defesa:

Rui Patrício: 3 desempates por penaltis, 16 penaltis no total. 2 defendidos, 3 ao poste, 11 golos sofridos. (13% de defesas feitas)… e em 31% dos penaltis contra si não há golo!

Renan Ribeiro: 3 desempates por penaltis, 17 penaltis no total. 5 defendidos, 3 ao poste, 1 fora, 8 golos sofridos. (29% de defesas feitas)… e em 53 % dos penaltis contra si não há golo! 

Dados individuais incríveis… e não se devem menosprezar as bolas fora/poste nestas estatísticas, que vão além das defesas efectuadas, pois a intenção do batedor em querer colocar mais a bola deve-se muitas vezes ao facto do guardião contrário fazer a baliza mais pequena para o batedor, tal a força psicológica que exerce sobre o mesmo.

Eis o grafismo que explica na totalidade estes 33 penaltis, em 6 desempates no total, e o destino da bola e o pé do batedor.

Existe a teoria popular que com pé direito, que é mais “fácil” marcar para o lado esquerdo, sendo um lado mais seguro para o batedor (e direito para o GR) e que os jogadores com pé esquerdo têm menor taxa de acerto. Se formos ver em número de tentativas nestes 6 desempates e o sucesso dos mesmos remates… podemos aferir que ambas são verdade nesta amostra. Mas esta amostra continua a ser curta, sendo essencial o GR perceber o contexto, estudar o adversário antes do jogo e durante o mesmo – se está cansado, confiante, como mete o pé no remate, para onde olha, etc – sendo essencial o trabalho do treinador específico e do atleta nestes momentos para se atingir o sucesso. Outro pormenor importante é o GR antecipar, mas não adivinhar, e estar sempre bem fixo e equilibrado até o batedor cobrar o penalti, sem deixar o corpo cair antes do remate acontecer.

Apenas estão aqui evidenciadas tendências, não factos científicos. Os dados na imagem acima são na óptica do batedor.

E isto é um bom debate. O que acham destas teorias, mais científicas ou empíricas, e como analisam os penaltis antes da batida? 

Penaltis durante o jogo ou nos desempates por penaltis?

Renan, por exemplo que é uma referência mais completa neste “estudo” pois viveu mais experiências em clubes diferentes, no total da carreira tem um acerto (em penaltis defendidos) de 20% num total de 15 penaltis e num desempate tem 29% sucesso como já referido em cima. Como se explica esta diferença dos 90/120min para o desempate final? A sua presença, leitura do lance, calma e serenidade e análise sequencial dos acontecimentos num desempate são acima da média e todo o seu perfil físico e psicológico são essenciais num desempate final, que possuem mais análises e batidas.

Mais ao pormenor…

Indo ainda mais dentro do assunto da sorte ou do trabalho… vejamos a quantidade de vezes que cada um destes GRs “acertou” o lado da bola (independentemente de defenderem ou não):

Renan Ribeiro – 11 em 17 vezes escolheu o lado certo no destino da bola (65% eficácia na escolha do lado da bola)

Rui Patrício – 6 em 16 vezes escolheu o lado certo no destino da bola (38% eficácia na escolha do lado da bola)

É quase o dobro para o guardião brasileiro… E ainda para tornar este assunto mais interessante na complexidade, sabendo que todos os desempates foram no mínimo em meias-finais de Taças e no máximo em finais…

Renan Ribeiro disputou uma meia-final da Taça da Liga e finais da Taça da Liga e Taça de Portugal, já Rui Patrício disputou uma meia final da Taça da Liga e outra da Taça de Portugal e uma final da Taça da Liga. Ou seja, em teoria, a complexidade de uma final é maior e Renan teve nestas decisões melhores números individualmente, com duas conquistas. O que ainda torna mais relevante estes números… Nos desempates com Rui, a equipa teve melhores índices de finalização e isso foi uma diferença da época passada para esta época pois Renan teve melhor desempenho (estatisticamente falando) e a sua importância foi mais assinalável.

E no final dos 120 minutos da final da Taça de Portugal deste sábado, que acabou em conquista nos penaltis pelo Sporting vs Porto… há uma imagem de Nelson (treinador de GRs) e Renan a correrem para a zona de balneários. Foi para relembrar a matéria?

E por falar em matéria… numa análise de tendências como Nelson e Renan podem ter analisado os penaltis e os cobradores habituais?

Vamos pegar nos batedores. Marega e Alex Telles saíram e como tal não bateram. Mas falemos dos outros 6 que acabaram por bater…

 

Dados A Última Barreira via Instat

O estudo origina que isto seja uma possibilidade maior: tendência por histórico e decisão também com base disso.

Por exemplo Tiquinho tem maior tendência em rematar para a sua esquerda (60% das cobranças) e manteve o lado. Talvez por ter maior dispersão de possibilidades nesta amostra de 5 penaltis anteriores (3 esquerda, 1 central, 1 direita), Renan foi para o lado contrário. Hernani também manteve e Fernando Andrade também. E, no último, Renan respondeu de acordo com o histórico. A análise ajudou a dar origem a um penalti defendido. Atenção ao detalhe é essencial…

E assim cai o mito da “sorte” nos penaltis ser a única justificação para o sucesso/insucesso no desempate? O estudo, a capacidade atlética, o “sentido de jogo”, a forma de lidar com as emoções e os movimentos na baliza para “desconcentrar” o adversário são essenciais na defesa de penaltis. Parabéns aos intervenientes, Rui Patrício, Renan Ribeiro e Nelson (treinador de GRs deste ano e que tinha Tiago no ano passado a ajudar também). E no final da partida Renan disse que Nelson era “chato”… se calhar com razão… 

Fiquem com os vídeos dos desempates, respectivamente, contra Rui Patrício e contra Renan Ribeiro:

Rui Patrício:

Renan Ribeiro:

Análise e estudo por Gonçalo Xavier, fundador e gestor d’A Última Barreira

Para contactos à página, e para trabalhos específicos sobre guarda-redes, contactar as redes sociais ou ultimaabarreira@hotmail.com

 

 

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