#27 Matvey Safonov – Agarrar a oportunidade e a crença em fazer história. O russo que quer ser o mais completo

Este fim-de-semana colocou-nos no radar um jogador que o Joel Amorim já falava há algumas semanas (ver aqui o seu perfil) que começava a brilhar na liga russa. Não começou a titular a temporada, num clube onde jogava Kritciuk que brilhou em Portugal, no SC Braga.

Um jogo da Liga Europa abriu a porta da equipa principal ao jovem guardião Matvey Safonov, que brilhava na equipa secundária. Fê-lo com 19 anos de idade, numa vitória ao Standard Liège por 2-1 e não mais largou o posto, sendo apenas trocado pontualmente. O gigante russo de 1.92m é formado no clube e hoje é visto como uma das maiores promessas europeias… indo bem além do território russo. E as expectativas estão altas, e justificam-se.

Esta semana foi a figura de destaque numa derrota contra o Zenit por 3-2. Sim, perdeu o jogo e mesmo assim toda a crítica falou dele. Porquê? Fez 12 defesas na partida e esteve em quase todo o lado na partida. Foi a noite em que colectivamente a equipa não conseguiu o que queria… mas individualmente foi onde o jovem guardião deu aso – e de forma justificada – a que todos os olhares fossem colocados em si. Mostramos de seguida essas defesas na partida… e depois vamos falar de quem é realmente Safonov na baliza.

 

Algumas estatísticas desta temporada, na 1a liga russa:

  • 4 jogos sem sofrer golos em 8 jogados na liga russa;
  • 0.8 golos sofridos por jogo
  • Eficácia de 65% de passes, num total de 17 passes por jogo.

Estatísticas SofaScore

E como guarda-redes, como actua? Quais os pontos mais e menos fortes?

Safonov apresenta-se, mesmo num momento ainda curto como profissional, como um guardião completo. Faz um pouco de tudo… e com boas tomadas de decisão. É de louvar a coragem e proactividade em tentar ser o mais completo possível, quando podia estar no conforto das suas maiores capacidades na baliza e ter rendimento nas mesmas. Mas não. Em múltiplos contextos apresenta-se como um guardião com capacidades que se destacam. De decisões simples e quando complica, a acção não sai com sucesso. Precisa ainda de achar esse equilíbrio para não ser um criador de erros mas sim um catalisador de estabilidade.

Além da envergadura – 1.92m de altura – é alguém que é competente no ar, no espaço e na baliza. De cabeça levantada e tronco direito, procura sempre o melhor posicionamento do corpo no campo e equilíbrio no mesmo para tomar a decisão. E é aqui que tem muito sucesso: saber onde estar e como estar. E isto representa a base do seu êxito em vários momentos do jogo. Todo o seu perfil morfológico transmite sensações positivas para a sua equipa e nocivas para o adversário. Porquê? Porque é uma postura confiante e desafiante para o adversário, de alguém que fisicamente é capaz e mentalmente é estável ao nível das emoções. Sente-se confortável a jogar com a mão, tendo rápidos e fortes lançamentos a uma mão, mas com os pés tem um dominante (direito) e joga pelo seguro com o mesmo, não arriscando a complexificação da acção, seja na forma ou no destino da mesma.

Sabe onde ir, como ir, quando ir. São citações importantes em qualquer atleta mas, no caso, cruciais no guardião porque remetem à tomada de decisão. E quanto mais estável e coerente for esta última, mais rendimento tem o guardião e melhores sensações de segurança passa aos colegas. E isso ele sabe, no ar, no espaço e na baliza. Desde o domínio dos posicionamentos, da orientação dos apoios, da posição base… tem as bases todas.

Isto são as qualidades… mas ainda precisa de maturar algumas coisas. Um dos exemplos mais claros é o jogo de pés. Apesar do conforto em jogar e bater com o direito… não está ainda capaz de lidar com a pressão ofensiva contrária e arrisca pouco nesse momento da construção desde trás. Dá a cobertura mas mal a bola chega e a pressão se aproxima, bate. Não há um ajuste dos apoios para uma recepção ou orientação para o lado contrário e jogar com a pressão e garantir uma devida circulação da bola desde o guardião. Há vontade disso, mas o conforto ainda não está assimilado, tanto na forma como coloca o corpo ou como sobrepõe o uso do seu pé dominante e abdica do pé contrário, seja em recepção ou batida com o pé. Vejam este exemplo.

Um lance com reduzida pressão, em número e em intensidade, que por existir um uso pouco adequado do corpo – para conseguir ver o outro lado do campo – obrigou a um alívio pouco forçado. E isto numa equipa que gosta de sair a jogar desde trás, Safonov dá mais garantias em colocar passes a média distância (para os alas projectados) em comparação com o passe curto para os defesas centrais.

Ficam mais exemplos de duelos aéreos ganhos, e como os ganha, e no espaço nas costas da defesa:

Nota: estes exemplos são desde 2018, entre selecção russa de sub21 e equipas A e B do Krasnodar.

 

 

Um guardião completo, numa escola russa que tem sido nos últimos largos anos de posição e reacção (exemplo Akinfeev) e que Safonov apresenta potencial para reagir… mas também para antecipar, sob boas interpretações e tomadas de decisão. Está aqui um guardião que tem tudo para ser figura europeia nos próximos anos, tanto pela idade como qualidade que já apresenta, conseguindo-se enquadrar em vários modelos de jogo, mas tendo ainda assim que apresentar melhorias na primeira fase de construção.

Muito interessante e a acompanhar.

  • Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira
Facebook Comments