8# Do Específico ao Integrado – “Em alta competição, todos os pormenores contam”

Em tempos, esta foi a frase que mais me fez sentido para elaborar artigos de opinião para a Última Barreira, a desafio do seu criador.

Depois de momento de pausa, os desafios continuam a surgir e hoje recuperamos esta rubrica com análise vídeo, de momentos aleatórios, com sucesso ou sem sucesso, mas sempre com a ideia de que partimos do específico para o integrado. No fundo, o guarda-redes será sempre uma peça do jogo. Contudo, e sendo integrado, nesta e em futuras análises são abordados pequenos pontos ao nível defensivo não só do guarda-redes, mas também do ponto de vista global das equipas, caso achemos necessário abordar para complementar a análise.

Deste modo, e após jogo louco no campo do submarino amarelo a contar para a Liga Espanhola – Villarreal 4-4 Barcelona – tive a curiosidade de ir observar o vídeo do resumo alargado do mesmo. Muitas coisas me chamaram a atenção mas mais particularmente o segundo golo do Villarreal que irei passar a abordar.

                Passemos à análise: Ter Stegen, os melhores também erram

Após momento de transição defesa-ataque por parte da equipa da casa, bola é colocada no corredor lateral e desde logo é vislumbrado um 2×5 que se fosse melhor defendido provavelmente teria mais probabilidades de sucesso para o Barcelona. Tal como indicado no vídeo, o defesa que está mais próximo do portador da bola abranda num momento inicial, dando vantagem ao atacante do Villarreal. Além disso, apesar de não ser apontado no vídeo, o defesa que acompanha o homem do Villarreal que se encontra no corredor central, provavelmente ao pensar que a bola iria sair, também abranda. Posteriormente, este homem do corredor central poderá fazer toda a diferença no comportamento que Ter Stegen adotou.

De seguida, na imagem aparece Ter Stegen. O mesmo encontrava-se na nossa opinião, demasiado basculado. Há quem defenda que o guarda redes não deve ter um posicionamento horizontal para lá do poste. Há quem defenda que poderá ir até à interseção do semi círculo com a linha da grande área. Mas do que foi possível observar, Ter Stegen encontrava-se numa posição ainda mais lateral. A partir deste pressuposto é possível afirmar que o posicionamento inicial condicionou todas as ações seguintes do mesmo, sendo que em diversos momentos observa-se uma falta de enquadramento com a defesa da baliza.

É certo que o mesmo até se deslocou em apoios cruzados no seguimento do lance mas o facto de estar mal posicionado num momento inicial levou a que os posicionamentos seguintes fossem deficitários. É claro quando o mesmo termina os apoios cruzados, encontra-se totalmente fora da bissetriz. Assumiu neste momento uma zona de cruzamento que não o beneficiou em nenhum momento.

Contudo, Ter Stegen a determinado momento consegue assumir uma zona adequada de cruzamento – a qual identificamos como zona 1 – estando precavido para situação de remate ou cruzamento atrasado. No entanto, a situação de cruzamento atrasado condicionou o comportamento de Ter Stegen. Será que o mesmo nunca equacionou o remate? Será que equacionou o remate no momento em que se posiciona de uma forma adequada mas rapidamente antecipou que o mesmo não iria existir? E se o defesa que falámos inicialmente tivesse acompanhado o atacante do Villarreal no corredor central esta hipótese surgiria com tantas certezas no pensamento/ação de Ter Stegen?

É ainda de dar nota ao homem do Barcelona que dá cobertura defensiva ao colega que tenta intercetar o portador da bola. O mesmo em momento algum conseguiu ser um equilíbrio defensivo. Num primeiro momento – enquanto a bola está ainda no meio campo – encontra-se bem posicionado. Contudo, acaba por afastar-se do colega, posicionando-se numa cobertura defensiva mais perto do corredor central do que do colega. Além disso, no seguimento do lance, o mesmo acaba por ficar dividido na ação que deveria tomar. Poderia ter saído em sprint e realizar uma permuta com o colega. Não o tendo feito, no momento em que o jogador do Villarreal faz golo, acaba por estar numa zona em que caso existisse cruzamento, não conseguiria em momento algum intercetar o lance.  É certo que estes lances são realizados a alta velocidade mas, em alta competição, todos os pormenores podem fazer a diferença. E os guarda-redes devem ser cada vez mais conhecedores e entendedores do jogo para conseguirem, por exemplo, comunicar com a sua defesa de uma forma correta e sobretudo eficaz.

Muitas questões ficaram anteriormente por responder. Mas a resposta é só uma e factual. Ter Stegen antecipa em demasia a situação, descura a possibilidade de remate, assumindo que o portador da bola iria cruzar para o seu colega solto de marcação e assim, teria sucesso. Nada mais errado, pois acabou por sofrer um golo que certamente não esperaria sofrer.

Antecipar as hipóteses é das capacidades mais importantes de um guarda-redes. No entanto, adivinhar não é o mesmo que antecipar e desta feita Ter Stegen acaba por ter insucesso. Certamente que aprendeu com este erro.

Gonçalo Lopes

Treinador de Guarda Redes – Juniores F.C.Barreirense

 

 

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