Mile Svilar: O julgamento emocional e a procura da culpabilidade individual pelo histórico

O Sporting acaba de eliminar o Benfica nas meias-finais da Taça de Portugal, ganhando há poucos minutos por 1-0 em Alvalade (depois de 1-2 na Luz, em que perdeu), passando à final no Jamor pelos golos fora.

Vi o jogo em pleno estádio e cedo me apercebi que Svilar era alguém – dos poucos – a querer puxar pela racionalidade, confiança e calma com bola e que poucos estavam nessa disposição. A equipa estava desconfortável e ele foi tentando em muitos atrasos dos colegas e nos pontapés de baliza jogar desde trás. Tentou muito o central do lado direito (Ruben Dias) e procurou o médio mais defensivo também mesmo com a pressão forte e alta do Sporting – podem ver esta estatística Goalpoint, que suporta o que vi em campo ao vivo

Sofreu um golo de um dos melhores marcadores em Portugal, com baixa probabilidade de ser convertida dada a distância e o ângulo em relação à baliza (ver aqui, novamente, estatística Goalpoint, que indica que tinha apenas 7% de probabilidade de entrar) e sai como o maior culpado da derrota/eliminação. Isto pelo que fui vendo no Twitter e que mostra muito que as pessoas, mais que julgar de forma mais/menos fundamentada, de forma racional, reagem muito com o coração pelo clube que gostam ou pelas percepções que têm do passado e que, por mais que algo no presente as deva mudar de ideias, insistem na ideia anterior. E juntem-lhe alguns mitos… e saem comentários que são mais baseados no coração e nos ditos populares que uma opinião mais técnica do momento.

Entre esses comentários que a bola não pode entrar ao primeiro poste, ao facto que Svilar ainda conseguiu tocar e que, logo, tinha hipóteses, ao ponto até de se analisar a sua reacção após o golo. Só pessoas que procuram imenso arranjar um culpado é que vão tão ao pormenor. Mas é a emoção do jogo e, para contrapor de forma fundamentada, é que A Última Barreira entra.

Para saberem do que falamos, fica o golo… os comentários ao mesmo chegam depois, mais em baixo:

A procura da culpabilização centrou-se no ponto final do lance: Remate e golo. Mas antes, até tocar em Svilar, conseguimos reunir vários comentários e até nem é preciso entender muito das componentes com/sem bola mais complexas do jogo.

Contem as perdas de bola (verdade que provocadas pela rápida e forte pressão) até ao remate de Bruno Fernandes. Contamos, pelo menos, três. Vemos ainda um defesa lateral que é driblado e que deixa o marcador com a bola descoberta para rematar à baliza. É de fácil percepção. Portanto, até antes de comentar o que o GR fez ou não… porque não culpar, antes de mais, o colectivo encarnado neste momento? Mas a procura da individualização por quem não tem um histórico favorável no clube é maior… e vamos então tocar em Svilar…

Falando então de Svilar neste golo…

O gesto técnico é, além de feito no limite e em desespero, o mais adequado. A mão contrário neste caso, com uma bola em força e ao primeiro poste com uma trajectória alta é eficaz. Nada a dizer aí. Agora o posicionamento…

O movimento corporal de Svilar, pelo que dá a entender pelas diversas perspectivas, sofreu poucas alterações entre o primeiro toque de Bruno Fernandes, antes do drible, até ao remate. Ou seja, o ponto onde fixou, foi aquele que foi o seu ponto de partida para o voo. Apoios fixos, e relativamente equilibrado, que estavam com uma cobertura algo distante ao primeiro poste, pois estava mais central do que é normal num remate de uma zona mais lateralizada. Advém daqui o dito popular que o GR ao primeiro poste não deve sofrer porque é esse que ele tem de controlar em primeiro lugar e garantir que não sofre golo aí. O exagero desse dito popular é que, sem análise e contexto, é dito com certeza que não há golos perdoáveis ao primeiro poste. Existem…  do outro lado existem jogadores que também podem ter mérito na acção, não sendo apenas demérito do GR no mesmo.

Como tal, juntando ao facto de ter fixado e não ter reajustado ao movimento da bola antes do remate, tornava o voo e defesa mais complicadas. Repito… isto pelas câmaras que mostraram as repetições do golo, pois faltava uma atrás da baliza para entender todo o movimento do GR. Se precisam de entender o que é isto da cobertura ao primeiro poste, que é um movimento mais defensivo do GR, pode-se usar Rui Patrício como exemplo que é alguém que faz muito esse posicionamento/movimento.

Os constantes ajustes e reajustes de um GR, perante o movimento da bola e dos jogadores, são resultado do maior foco do GR no lance e procura da redução de probabilidades de insucesso individual no momento da remate contrário. O posicionamento mais “estanque” e central são também demonstrativos da sua alta confiança individual, que reagirá facilmente a qualquer estímulo. Daí ter dado a sensação que podia ter feito mais… e talvez pudesse, mas não naquele ponto de partida. É mais que um aspecto técnico do voo de forma pura, mas da posição, análise e reajuste dos membros inferiores. Os pés/pernas são facilitadores da acção e se bem enquadrados… são catalisadores de sucesso, pois a defesa sairá natural após a base estar bem executada.

A minha questão é, aos que rapidamente se apressam em comentar o que o GR fez/não fez: viram isto tudo no lance? Até onde foi a análise e, até que ponto, o contexto não ajuda a uma percepção mais desvirtuada?

Se a questão for atribuir culpas, Mile Svilar é talvez o 5o/6o culpado. Antes dele ter a possibilidade de falhar ou acertar, outros já tiveram essas decisões e acções erradas. Mas se for para falar apenas do GR, está em cima o comentário ao lance. Podia estar a reduzir mais ao primeiro poste? Sim. Se usou a mão certa? Sim. Se cremos que a acção advém essencialmente do seu posicionamento mais central? Sem dúvida! Se procuram culpados, vejam nesta explicação aquilo que mais procuram para tal. Mas façam essa reflexão e conclusão sozinhos. Em acrescento, deixo esta publicação de Novembro de 2017 num mau posicionamento de Svilar num remate exterior, que pode servir de comparação para o tema aqui abordado – ver aqui 

Mas uma coisa tenho a certeza… Svilar não foi de todo o pior elemento da equipa na noite de hoje como li muitas vezes. E até esteve naqueles que melhor cumpriu com as suas funções (saiu pelo ar, tentou organizar com os pés, entre outras acções – que não foram muitas – que ia tendo) e que não merece a constante procura do seu erro para julgamento, sendo que este último é mais feito pelas acções de insucesso no passado. E nenhum ser humano ou profissional merece ser julgado no presente pelos erros do passado apenas. Por mais que seja um produto ainda muito em bruto e que precise de minutos… pensem que isso é uma questão também directiva e de qual pretendem que seja o rumo da carreira do jovem guardião encarnado. A culpa não fica isolada… e aqui existem muitas questões de gestão de expectativas/falta de paciência em lidar com o erro e na progressão saudável de um jovem que continuar a ter o mesmo potencial. É essencial, porém, olhar ao homem. E falta muito isso, infelizmente.

  • Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira

 

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