A Complexidade do Treino e os seus degraus

Naquilo que é um processo de treino de Guarda-Redes, temos os mais variados exercícios, dinâmicas e circuitos. Exercícios mais fechados para as capacidades motoras e técnicas, exercícios de dimensões maiores e mais abertos com enfoque em posicionamentos e aspectos tácticos e decisionais. Naturalmente, há diversas formas de avaliar um processo de treino, independentemente da baliza temporal de um micro, morfo, meso ou macrociclo. Mas quando planeio ou observo um treino, o que assumo como o seu cerne é a adaptação. Estaremos nós treinadores a moldar o Guarda-Redes da forma correcta? Qual a sua plasticidade e qual a nossa capacidade para influenciar o molde final? A complexidade que coloco no exercício é ajustada, inferior ou superior à capacidade do Guarda-Redes de dar resposta? Com isto, vou hoje abordar a complexidade e a manipulação dos seus graus. Ou como eu prefiro, os seus degraus.

 

Plasticidade motora e mental

Antes de dar alguns exemplos mais práticos, abordo a plasticidade do atleta no seu panorama mais global. Um atleta é um projecto continuamente inacabado, passível de receber informação e de se tornar mais completo e mais sofisticado. Imaginemos um pedaço de barro em bruto: quando o recebemos assim, podemos dar-lhe a forma que entendermos. Os diferentes processos de treino a que o atleta é sujeito são como um forno a baixa temperatura que lentamente vai consolidando a forma final, cada vez menos susceptível de ser alterada ou aperfeiçoada. Daí ser bem mais fácil de introduzir comportamentos e garantir aquisição de conhecimento num Guarda-Redes em bruto: a evolução num processo sustentado e planeado é visível a olho nu até numa base temporal diária. Naturalmente, um Guarda-Redes sénior com vários anos de prática e exposto a várias metodologias e feedbacks não só é menos plástico como também ganhou a sua própria consciência motora e metodológica: acredita nas suas técnicas, posicionamentos e decisões por ter passado por várias abordagens e substancia as suas acções de acordo com um ideal.

Todo e qualquer diagnóstico de um Guarda-Redes deve primeiramente compreender o contexto, historial e anos de prática do mesmo:

1) Quanto maior a idade, menor a plasticidade motora, mas uma outra deve manter-se como base de sustentação para um atleta melhor: a plasticidade mental. A de saber ouvir e de se questionar se algo pode ser acrescentado. A de garantir margem aquisitiva e a capacidade de aprender mais.

2) Quanto menor a idade, maior a plasticidade motora. De acordo com os períodos sensíveis de desenvolvimento das capacidades coordenativas e condicionais, a aquisição de técnicas e padrões decisionais é bastante superior. Um avançado pode sempre tornar-se Guarda-Redes, mas é “menos difícil” (e não “mais fácil”) consegui-lo em idades mais baixas, pela panóplia quase interminável de técnicas e missões tecnico-tácticas a abordar do zero. Sim, o “pedaço de barro em bruto”. Escrevo por experiência própria, por estar num processo desses há dois meses.

 

Degraus de complexidade

A complexidade prende-se não só na quantidade de variáveis, oposições e constrangimentos que o exercício coloca ao dispor da mente do atleta, mas sobretudo na variabilidade decisional a que este estará sujeito. Quanto maior a variabilidade decisional, maior a complexidade do exercício. O planeamento do exercício deve obedecer à capacidade do grupo de Guarda-Redes em dar resposta aos problemas que lhe vão ser colocados. Sejam eles táctico-decisionais, sejam eles técnico-motores! E aqui surge, no meu entender, uma das grandes questões e que pretendo que seja o nosso foco de reflexão. Vejo muitos exercícios, seja em vídeo, seja presencialmente. E a base desses mesmos exercícios engloba-se, na sua generalidade, na complexidade mínima (um tipo de deslocamento ou uma acção técnica definida) ou na complexidade máxima (remate livre, cruzamento livre). Aqui introduzo o que eu considero os degraus de complexidade. A complexidade, como referido anteriormente, deve ir ao encontro da capacidade do Guarda-Redes em dar resposta. Esta deve ser balizada nos factores de melhoria do Guarda-Redes enquanto atleta singular, criando degraus intermédios para o mesmo interpretar. Se houver demasiado insucesso, devemos questionar o nosso exercício, e não o Guarda-Redes em questão. Basicamente, porque podemos não estar a criar condições para que ocorra treino, para que haja aquisição de conhecimento.

A fragmentação de decisões é um caminho sustentado em que nós enquanto treinadores, manipulamos a variabilidade decisional (e consequentemente motora) de um determinado contexto. Por exemplo, em vez de abrir o contexto de cruzamento, podemos optar pela complexidade mínima (uma só zona) ou uma complexidade intermédia (primeira e segunda, segunda e terceira zonas) onde o Guarda-Redes aborda o contexto mas de forma controlada. Mesmo assim, decidindo! Mas dando passos sustentados para atingir o total domínio do contexto. O mesmo se poderia aplicar ao contexto de remate, com ou sem encurtamento, com bola controlada ou não controlada. O verdadeiro busílis prende-se na procura constante do treinador em criar condições óptimas para a aquisição de conhecimento. Pensar, criar, fazer pensar!

 

Desmultiplicação da técnica

Da mesma forma que os contextos podem ser fragmentados em diferentes degraus de decisão, a técnica só pode ser ensinada na perfeição e de forma sustentada através da sua desmultiplicação. Quando um novo Guarda-Redes me é apresentado e me pedem uma avaliação, abordo as técnicas-base e o sucesso na defesa da baliza. Aí tenho a noção da capacidade técnica e motora em tarefas fechadas e abertas, reunindo informação sobre os pontos fortes e menos fortes do Guarda-Redes. Tanto vejo Guarda-Redes bons na técnica e menos bons em termos de sucesso, como vice-versa. Desde logo, tenho a noção se o trabalho deve ser voltado para o desenvolvimento/consolidação da técnica, ou para a sua adaptação a contextos variados e trajectórias indefinidas.

Quando uma técnica não está correctamente consolidada, há que aceitar com naturalidade que não vão ser cem bolas que a vão corrigir. Sobretudo se não soubermos o que corrigir. Partir a técnica em degraus desde a sua base permite-nos, com a nossa experiência e sabendo o que procuramos, descobrir aquele pequeno detalhe que vai fazer toda a diferença. E todos nós sabemos que a excelência técnica é uma reunião de pequenos grandes detalhes numa acção motora consistente. Imaginemos a queda lateral. Pensemos em como partir, desmultiplicar, fragmentar uma acção motora como esta. Até à base da base. Será só rematar lateral, mas mais devagar para facilitar a tarefa? Ou poderemos nós controlar: 1) posição do Guarda-Redes: de lado no chão, de joelhos ou de pé; 2) bola parada, em movimento lento ou rápido; 3) bola no chão ou bola na mão; 4) trajectória definida num lado ou em ambos.

A progressão pedagógica que aqui se pode atingir através da nossa criatividade e capacidade de observação enquanto formadores identificará seguramente o foco de melhoria. Da mesma forma que abordei esta técnica, poderia abordar todas as outras. O fulcral é assumir que existem degraus a subir. Com zero anos de formação, sendo o tal “pedaço de barro em bruto”, todos estes passos podem ser necessários para a introdução/desenvolvimento de uma técnica. Com mais anos de formação e com uma eventual anomalia no ensino da técnica durante os períodos sensíveis de desenvolvimento, regressar a um destes degraus não tem de ser problema. Como lhe costumo chamar, regressar ao “exercício de benjamim” pode e é, por experiência, um modo de ajudar um sénior a melhorar uma capacidade técnica. Independentemente da sua menor plasticidade motora, a resiliência de atleta e treinador é e continuará a ser um modo infalível para que ocorra evolução.

Nunca a aquisição de conhecimento é uma viagem de elevador onde se carrega no botão do último piso para o bar rooftop e se aprecia a vista lá no topo. Temos mesmo que ir pelas escadas. Pé ante pé. Degrau a degrau.

 

(este artigo não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

João Garcia (Instagram -> joaogarcia_gkcoach)

Coordenador do Departamento Treino de Guarda-Redes Feminino no GD Estoril Praia

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