O guardião adversário e os seus comportamentos padrão (ou não)

Sei que acontece em muitos lugares, mais ou menos profissionais, com maior recorte analítico ou empírico, mas sou da opinião que se temos conhecimento ou estimulamos a nossa percepção perante os outros, devemos tirar partido disso. E também posso analisar o guardião e os comportamentos que possui com a sua defesa/equipa e as dinâmicas entre estes dois sectores recuados.

A altura, o pé dominante e se recepciona a bola de forma orientada ou se bate logo, se tem comportamentos em antecipação perante uma bola entre os defesas e vai cortar fora da área ou se recupera a posição e espera pelo remate ou que o seu defesa corte… existem muitas acções que podem ser analisadas e tidas como padrão, independentemente dos contextos. Porque o contexto é tido sempre em conta — se em X jogo estava chuva, ele batia a bola logo mal lhe passavam ou se em Y jogo ele pedia a bola e saia curto ou se mantinha a intenção de bater longo de primeira (este, neste caso, tido como comportamento padrão) — pois um jogo desprovido de contexto é um jogo sem história e sem a história não conhecemos os interpretes. Os maiores enrendos e guiões de teatro/cinema são-no porque as personagens/interpretes acrescentavam algo que fazia o espectador seguir com olhos de atenção ou de desdenho (caso fosse de má qualidade na representação). E um jogo de futebol é uma história no qual damos um guião a cada equipa e elas depois unem-se para a contar. Como tal, os contextos/ambientes merecem ser integrados na análise num jogo de futebol e, neste caso, de um guarda-redes.

No meu caso pessoal, é-me dada a possibilidade de conseguir analisar o adversário sempre dias antes de jogar contra nós, equipa masculina de Futebol do ISCTE (campeonato universitário). Vejo entre 2–3 jogos, os últimos disputados pela equipa, por via streaming e tento entender se, em primeiro lugar, o guarda-redes é o mesmo. Se não for, preparo várias análises para essa diferença de guarda-redes e, em jogo, logo confronto com os meus dados e vejo quem está a aquecer com mais intensidade para ver quem irá jogar. É passada essa mensagem, dias antes, aos treinadores da nossa equipa que depois irão complementar as suas devidas análises macro, ao espectro total da equipa, com a mini análise comportamental do guardião adversário. Hoje enquadramos as duas análises, do mais macro ao micro e vice-versa, para dar uma maior amplitude de conhecimento adversário e estarmos melhor preparados durante o jogo. A preparação é a chave para nós reagirmos durante o jogo e darmos o correcto feedback adaptado a essa situação, para o nosso atleta comportar-se sabendo de antemão que o adversário tem determinados comportamentos com/sem bola, e também para estes confiarem no trabalho da equipa técnica. Sentirem que as coisas são devidamente analisadas (e requer tempo, para pessoas que trabalham fora do futebol e durante todo o dia) e que há uma preocupação no processo da própria equipa… sem descurar o que possa aparecer do outro lado. A confiança na preparação é boa parte do sucesso, o resto é acção individual/colectiva de cada jogador/equipa.

Mas falando do guardião adversário e da sua defesa… durante a análise dos tais 180/270 minutos que vou vendo da equipa contrária, antes do jogo que nos irá colocar frente-a-frente, vejo todos os pormenores do guardião. Até os que parecem tão banais, aos olhos distantes, como “parece ficar amedrontado com bolas ao segundo poste na bola parada”. Mas o que isto nos dá de informação? Que o guardião, mais especificamente, não só tem esta dificuldade psicológica neste tipo de lance como tem dificuldades na sua movimentação e não se integra e coordena devidamente com a equipa. O que nos pode dar de “input” ao nosso plano de jogo? Vamos, talvez, colocar homens mais altos ao segundo poste e tentar colocar uma ou duas bolas para esse local “fraco” do adversário. Este tipo de análise geram comportamentos adaptados ao contexto com base em pequenos pormenores identificáveis em vídeos.

Por histórico, com iguais condições no campo (sintécticos) e com um comportamento adversário padronizado como, por exemplo, uma bola entre a defesa e o lateral do lado direito, o guardião não se sair e a equipa tiver dificuldade nesse momento da transição defensiva, dá-nos indicações que podemos explorar isso se os jogadores forem os mesmos porque é algo padronizado. Ou se o guardião, no 1×1, cai muito rápido ou não pára o seu movimento para fixar apoios e reagir a esses lances. Com este último, por exemplo, falo com os nossos elementos “com golo” e dou esse feedback de tendências e padrões do guardião adversário no 1×1. Dou conselhos como, quando tiverem a bola controlada, chutarem logo ao 1º poste ou em diagonal (dependendo do que capto da análise) e/ou piquem a bola por cima para o obrigar a recuar no terreno. Pequenos pormenores que vão desmontando o adversário e que podem — ou não, porque o jogo é complexo — gerar sucesso. Pelo menos, pela preparação, pode esse caminho estar perto e ser de cariz complementar a todo o trabalho feito durante a semana mas que, como é tão pormenorizado — e principalmente dá soluções (e para isto é bom, porque há essa hipótese, de mostrar lances de sucesso, em video, tendo em conta este feedback) para um problema que pode ser o golo e tem alguém que quer evitá-lo.

Preparação e feedback são a base de quase tudo. A adaptação é uma arma que podemos usar se quisermos estar preparados para a complexidade e imensidão de contingências no jogo. E essas armas são para usar de forma racional e no tempo certo… sob pena de perderem o seu valor prático.

– Gonçalo Xavier

Fundador e gestor d’A Última Barreira e treinador de guarda-redes no ISCTE (futebol masculino)

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