Treino de remate: Mais do que isso, “uma visão sobre o treino de guarda-redes”

Por Daniel Araújo

Este vídeo incide sobre o treino de situações de remate – exterior, interior, em 1×1 (com a possibilidade de alguns lances de bola no espaço). No entanto, o vídeo apresenta mais do que uma lista de exercícios. Este vídeo (como a maioria dos que eu publico)[1] apresenta a minha filosofia de guarda-redes e treino, com alguns dos pontos que são essenciais no meu trabalho; neste caso é um vídeo sobre acções de defesa da baliza. Claro está que, num espaço que tem que ser curto no tempo (para ser acessível), não é possível passar todas as minhas ideias sobre o treino. Ainda assim, se for prestada a atenção devida aos textos introdutórios e aos comentários que surgem, acredito que se consegue compreender muito daquilo que são as minhas ideias e práticas.

Contexto do clube: as imagens registadas referem ao período em que trabalhei no G.D. Gafanha – entre o final de Julho e o final de Dezembro. A entrada no clube aconteceu a uma semana da primeira semana competitiva, com o plantel ainda por definir (não tínhamos qualquer guarda-redes contratado), tal obrigou-nos a avaliar e preparar em simultâneo. Foi uma experiência totalmente nova e que muito me enriqueceu, pois vi-me obrigado a criar exercícios que me permitissem avaliar os guarda-redes que tinha a trabalhar comigo e, ao mesmo tempo, passar os princípios fundamentais para a posição, segundo o nosso modelo. Durante os primeiros dez dias de treino contei com três guarda-redes à experiência – primeiro um guarda-redes (Bruno), e mais tarde entraram dois novos (Juliano e João Vítor); a estes juntaram-se dois guarda-redes da formação do clube (Frade e Neto); os guarda-redes que acabaram por ser contratados (e completar o período em que trabalhei no clube) foram Nuno Silva (1997, ex-Trofense) e Pedro Palha (1998, ex-Merelinense). No caso do Nuno o trabalho foi simplificado pelo facto de já termos trabalhado juntos no C.D. Trofense (tal como com o Treinador Fábio Pereira) em 2016/17.

A filosofia de guarda-redes e o modelo de treino:

O futebol moderno vai pedindo cada vez mais tarefas ao guarda-redes. Este está em campo, actualmente, muito mais do que para agarrar a bola quando o adversário remata à baliza (ou quando o colega lhe passava a bola, olhando ainda mais para trás). Assim, procuro um guarda-redes – enquanto perfil, sim, mas procuro-o principalmente com o treino – que é culto tacticamente, que conhece o jogo e escolhe as melhores respostas para as questões que este lhe coloca. Essas respostas são as acções técnicas e/ou físicas, e claro está, o guarda-redes terá que saber executar (e trabalhamos nesse sentido), no entanto, não parto da técnica para o jogo, mas sim o inverso, do jogo para a técnica.

A minha abordagem ao treino, na planificação e operacionalização, é guiada tendo em conta um conceito que chegou até mim pela voz de Ricardo Peres: a divisão dos momentos (e submomentos) em CONTEXTOS. Ou seja, no jogo há dois grandes momentos de jogo (ofensivo e defensivo) que se subdividem em quatro (Organização Ofensiva, Transição Defensiva, Organização Defensiva e Transição Ofensiva); em cada um destes submomentos inserem-se os contextos – Organização Ofensiva: Primeira fase de construção a partir do guarda-redes e Passe Atrasado; Transição Defensiva: Bola no Espaço (com possibilidade de se transformar em 1×1) e Remate; Organização Defensiva: Bola no Espaço, 1×1, Remate, Cruzamentos (atrasado e largo); Transição Ofensiva: Passe Atrasado, Transição Rápida e/ou Directa pelo guarda-redes. Só dentro destes contextos acontecem as acções técnicas, sejam ofensivas (recepções, vários tipos de passe e distribuição com pé e mão), sejam defensivas (recepções com mão, com e sem queda, desvios, intercepções no espaço, saídas no ar, com ou sem desvio ou soco, diagonal à frente, 1×1).

Naturalmente, num jogo tão complexo e imprevisível como o futebol, os momentos, contextos e acções não acontecem de forma segmentada e ordenada. Tudo se mistura, num caos que cabe (também) ao guarda-redes interpretar e organizar.

Esta forma de partir o jogo em situações mais passíveis de serem treinadas (com o volume necessário para que os comportamentos se alterem e/ou tornem efectivos), em que cada parte do jogo carrega em si a essência do jogo no seu total (e do nosso Jogar), tem uma (enorme, a meu ver) familiaridade com os conceitos de fractalidade e Especificidade sugeridos por José Guilherme (Oliveira, 2004)[2], intimamente ligados à Periodização Táctica proposta por Vítor Frade. Em suma, o treino sobre contextos ajuda a periodizar tacticamente o treino de guarda-redes.

Aparte (fracturante): num momento em que tanta gente fala sobre futebol (e ainda bem que assim é, que se fale sobre o jogo), sobretudo sobre o futebol positivo, com muito conhecimento táctico à mistura, invocando nomes como Guardiola ou Crujff (dois tempos bem afastados) e as suas ideias para o jogo e para o treino, porque será que o treino de guarda-redes continua à parte desta filosofia?

Porque será que quando converso com algum leigo nas áreas do treino e análise de futebol (mas ainda assim interessado pelo fenómeno), e digo que sou treinador de guarda-redes (assumindo que não fica surpreendido pelo guarda-redes ter um treinador “só para si”, o que já é sinal de evolução), porque será que as pessoas falam sempre daqueles “exercícios com gincanas e saltos, e cambalhotas…”?

Porque será que (e estou a generalizar, peço desculpa) o treino dos “jogadores de campo” pode (e para muitos deve) ser centrado em práticas contextualizadas, em “treinar o jogo”, e o treino de guarda-redes é tão taxativamente conotado com o foco no treino de técnica e físico?

Daniel Araújo no Gafanha (Campeonato de Portugal)

A minha metodologia de treino parte, então, de uma análise às nossas necessidades (a nossa prestação e os nossos objectivos enquanto construtores de uma Identidade e Modelo de Jogo) e às características do nosso adversário. Do cruzar desta informação (com prioridades diferentes, percentagens diferentes a cada semana) surgem as minhas prioridades para o treino. As questões que esta informação levanta vão implicar respostas diferenciadas, desde o macro (o jogo) ao micro (o pormenor técnico e/ou físico de um guarda-redes em particular). Para responder a cada uma destas necessidades utilizo três tipos de treino: Treino Complementar; Treino em contexto; e Treino de Acções Complexas (antes defini como “treino com oposição e/ou cooperação”). Tal como o jogo, estes treinos cruzam-se e misturam-se ao longo de cada sessão de treino.

  • Treino Complementar: são exercícios de preparação para uma fase posterior, ou de aperfeiçoamento essencialmente técnico. Estão aqui incluídos, também, exercícios de potenciação muscular e prevenção de lesões;
  • Treino em Contexto: são situações treinadas no campo de jogo, com as referências que o guarda-redes encontra no jogo. As opções para o desenrolar do exercício contemplam a imprevisibilidade, no entanto não há um número muito alargado de combinações possíveis. O exercício procura recriar alguns movimentos e intenções (nossas ou do nosso adversário) no espaço físico onde o guarda-redes vai jogar.
  • Treino de Acções Complexas: são exercícios em forma jogada. Seja com dois ou quatro elementos, o exercício passa sempre por um conjunto de combinações que aumentam a imprevisibilidade do exercício. As acções complexas são treinos em contexto mas com uma abertura se não total, quase.

Feita esta (longa) introdução que, espero eu, torne mais fácil a compreensão do vídeo, à partida, falo sobre o vídeo em questão:

O primeiro separador inclui vídeos de vários exercícios que eu enquadro no Treino Complementar. São exercícios bastante fechados, e focados em não mais do que duas acções (podem acontecer mais, mas a minha atenção está focada em um ou dois pontos). O facto de serem exercícios eminentemente técnicos não deve eliminar, na minha opinião, a imprevisibilidade do exercício. A minha (talvez ainda curta) experiência tem-me mostrado que há guarda-redes que apresentam um bom nível técnico em acções fechadas – por exemplo, numa queda, sabendo para que lado vai a bola – e, quando perante uma acção mais aberta o seu nível técnico cai drasticamente – e muitas vezes não é preciso ir para o contexto, sequer, basta o facto de não saber para que lado vai a bola.

O Treino Complementar serve então para preparar o guarda-redes para uma acção mais complexa que se segue, mas serve também para esmiuçar pormenores. Aqui entra uma vertente personalizada do treino, seja por um erro recorrente, por algo que se quer optimizar, ou por uma rotina que o guarda-redes gosta de ter, este espaço (seja antes ou durante o treino integrado) serve para trabalhar sobre o individual, sobre o pormenor.

Os separadores seguintes (Treino em Contexto e Acções Complexas) mostram um crescendo de complexidade, desde simples ajustes na definição da bissetriz, até lances de “jogo jogado” com vista ao golo. O foco aqui é mais aberto, a questão deixa de ser “como fizeste?” e passa a ser mais “O que fizeste? Porque fizeste?”. Esta mudança de perspectiva trás uma dimensão diferente ao treino, o detalhe existe, mas aqui é marcado psicossomaticamente. A repetição quer-se para que haja um entendimento sobre comportamentos, não se procura tanto um volume físico de acções. Desta marcação podem surgir motivos para um futuro trabalho complementar, por exemplo.

Não é possível perceber no vídeo, mas a gestão dos conteúdos e da sua apresentação ao longo da semana, não é linear. Na minha metodologia não há um “dia de remate”, tudo vai depender do tipo de situação de remate que eu quero treinar (estará dependente, maioritariamente, do adversário que vamos enfrentar) e da articulação que faço entre a periodização física do treino e os conteúdos tácticos que quero apresentar. Isto é não mais do que a Periodização Táctica.

Tal gestão pode-me levar a partir um treino de remate em várias partes, apresentando-as ao longo da semana, considerando os objectivos físicos ideais para cada dia.

 

[1] Para aceder a mais conteúdo subescrevam o canal: https://www.youtube.com/channel/UC67gdUGaF7L-mLVoIVhpoew

[2] Oliveira, José (2004). Conhecimento Específico em Futebol. Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do processo de ensino-aprendizagem/Treino do Jogo. Porto: Universidade do Porto.

 

(Carregar na imagem para ver o website e a sua oferta, entre luvas, equipamentos, materiais de treino)

Resultado de imagem para patreon logo

SUPORTAR A COMUNIDADE UB A MANTER-SE ACTIVA:

Ajudem A Última Barreira em “Patreon” com apenas 1 euros, e damos conteúdos exclusivos e personalizados à tua imagem/pedido.(clicar no link) e podem sempre enviar-nos email para ultimaabarreira@hotmail.com

 

PODEM OUVIR O TERCEIRO PODCAST UB, COM RUI TAVARES, AQUI: (OUVIR AQUI)

SIGAM-NOS NAS REDES SOCIAIS (CLICAR NAS IMAGENS):

Resultado de imagem para youtube logoResultado de imagem para facebook logoResultado de imagem para twitter logoResultado de imagem para instagram logo

Facebook Comments