Guarda-redes moderno: a (não) falácia dos centímetros

Antes demais, e em jeito de síntese, este artigo visa à eterna discussão sobre a altura dos Guarda-redes e o que este factor pode influenciar nas suas capacidades. Com esta finalidade, foi realizado pelo autor um estudo das cinco principais ligas europeias e também da liga portuguesa, onde foram recolhidos dados pertinentes para as conclusões finais a retirar.

Numa altura em que a seleção portuguesa conta com mais uma estreia internacional na baliza – de seu nome Cláudio Ramos e que já justificava uma chamada anterior não fosse a qualidade e quantidade de opções para o sector -, adensou-se uma discussão que por si só será sempre interminável: a altura dos Guarda-redes.

“Cláudio Ramos tem 1,83 metros e é baixinho para guarda-redes, mas o Beto também tem 1,82 metros e é um guarda-redes de topo!”, ouvi esta frase vezes e vezes sem conta, e dei por mim a fazer esta pergunta: “Mas afinal, qual a altura que define se um Guarda-redes é alto ou baixo?” Pela lógica, posso entender que 1,82 metros para um jogador de basquetebol ou de andebol é uma altura francamente baixa, mas num desporto como o futebol, onde temos “craques de metro e meio” e “pinheiros de 2 metros”, como podemos definir de forma exata e fundamentada a altura ideal para uma posição tão específica e tão importante no futebol atual?

O estudo

Depois de voltas e voltas na minha cabeça, decidi realizar um pequeno estudo que irá servir de base à fundamentação da minha resposta à questão colocada, que virá no final deste artigo.

Este estudo baseou-se no atual ranking de clubes da UEFA (no sitio online da organização) à data de 07/11/2018, no qual retirei os 6 clubes melhores classificados das 5 principais ligas europeias (Alemanha, Espanha, Itália, Inglaterra e França) e o mesmo procedimento fiz com os 6 clubes melhor representados do campeonato português.

Após essa seleção de clubes, com base no mérito dos mesmos e não em qualquer relação de gostos, através do site “transfermakt” (site de referência em termos de futebol) fui pesquisar os 3 guarda-redes mais valiosos de cada um dos planteis, segundo o valor atribuído pelo mesmo espaço, e retirei a altura dos mesmos, fazendo uma média de cada campeonato e depois uma média final de alturas, para que fosse possível tirar algumas ilações.

Apresento, então, os resultados desse estudo:

 

Nota: Como o objetivo desta análise não é em termos individuais, decidi ocultar o nome dos Guarda-redes da mesma, de forma a não existir uma “aproximação” às qualidades dos guardiões que quer eu quer o leitor possamos ter.

Como é possível observar (e sem grande surpresa, diga-se) os números mostram-nos que o campeonato onde os Guarda-redes têm uma maior envergadura é precisamente o alemão, onde a média de 1,91 mts só não é mais elevada devido ao Borussia Mönchengladbach, que tem nas suas fileiras não 1, mas 2 guardiões com menos de 1,87 mts. Em oposição, e também sem causar espanto de maior, na “cauda” deste estudo situa-se o campeonato espanhol, onde a média de alturas é de 1,89 mts, uma pequena diferença alicerçada na fisionomia que por natureza os alemães possuem em relação aos demais.

Numa média de todos estes números acima expostos, podemos então concluir que os melhores clubes da Europa e os melhores clubes de cada país têm procurado guarda-redes com uma altura a rondar 1,90 metros (altura já interessante para um jogador de andebol, hein?).

Nunca afirmando que a altura é o fator mais determinante para o sucesso ou insucesso de um guarda-redes, a verdade é que conta… E muito. Vivemos numa era em que o futebol já não é apenas para quem nasce com talento, também é preciso nascer com a fisionomia adequada.

E nisto transporto o leitor para uma reflexão óbvia, porém pouco falada: todas as capacidades motoras podem ser trabalhadas e aperfeiçoadas, e se as cargas forem aplicadas dentro das “janelas temporais” corretas, podemos fazer a diferença em certos miúdos, para quando chegarem à idade adulta serem mais rápidos, mais velozes, mais coordenados ou mais fortes. Porém, existe um fator que, até à data, não conseguimos manipular: a altura. Ou se nasce com ela, ou não. É simples, duro, real e até cruel em alguns casos, onde existe muita qualidade, mas o guarda-redes não consegue chegar à barra.

Sei que por esta altura muitos abanam a cabeça e estão a contradizer tudo o que escrevo com a altura do Cláudio Ramos, do Beto ou até do Anthony Lopes (já lá vamos…), mas a verdade é que não podemos exigir aos clubes de topo que percam tempo, recursos humanos e materiais e acima de tudo dinheiro (que é o que de tudo se trata…) a trabalhar arduamente com jovens aspirantes a guarda-redes profissionais quando estes têm imenso talento, mas nos testes que se realizam já se prevê que não passem do 1,85 metros.

São números, estão ali bem acima. Não estou a inventar nada.

É a história da pirâmide… Para chegarem 5/6 ao topo, 500 vão cair (aqui admito que não utilizei nenhuma base cientifica, apenas um número exagerado porém certamente não longe da realidade). Como treinador de Guarda-redes, sou o primeiro a reconhecer que me custa às vezes ver imenso talento que nunca chegará ao topo, “apenas” pela altura…

Mas como posso eu ter um atleta (academicamente falando) que tecnicamente é muito evoluído, tem “timings” perfeitos de ataque à bola, mas sofre golos a meia altura treino após treino, jogo após jogo, e nós querermos corrigir, analisarmos o vídeo e chegarmos à conclusão: “ele não errou! Fez tudo bem, só que faltam-lhe ali 10 centímetros…”, ao passo que temos outros guarda-redes, não tão tecnicamente evoluídos, sem o tal timing tão perfeito de ataque à bola, mas que do alto do seu 1,90 defendem todas essas bolas…?

Pois é meus amigos, aqui voltamos à questão que não podemos fugir: técnica pode ser trabalhada, “timings” também, mas a altura…? Não dá mesmo, não é?

Não me desviando, contudo, à questão do Cláudio Ramos (1,83), Beto (1,82), Anthony Lopes (1,84) e ainda “chamando” à conversa Ospina (1,83), Sommer (1,83) ou Vorm (1,83) como explico então que todos estes “monstros” tenham chegado ao topo? Pois bem, se existe uma coisa física que não é possível ser trabalhada como a altura, existe algo muito mais importante que nasce com todos, mas apenas alguns conseguem usar em seu proveito: a Mentalidade!

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Para se ser um guarda-redes de topo tem de se ter uma mentalidade de topo, e se num universo onde os guarda-redes “baixinhos” sabem que terão de escalar muito mais para chegar ao sucesso (pois já partem com uma grande desvantagem em termos daquilo que será a seleção natural da posição), esses mesmos terão de se superar em relação aos outros não em termos físicos ou técnicos (isso todos têm, uns mais outros menos) mas sim em termos de mentalidade competitiva.

E neste ponto destaco um guarda-redes que a mim me dá imenso prazer ver jogar: Beto. E vejo muito de Beto no Cláudio Ramos. E prevejo, assim, um futuro brilhante também a Cláudio Ramos, que em tudo está a fazer uma carreira parecida aos primeiros tempos de Beto: ambos começaram em clubes bem modestos a sua caminhada na primeira liga. Beto chegou ao topo, Cláudio vai lá chegar… Se continuar com a mesma mentalidade de até então!

Ainda assim, deixo um repto ao leitor:

Será que se Beto, Cláudio Ramos ou Anthony Lopes tivessem uma altura que estivesse na média (1,90 mts), não estaríamos neste momento a falar de um Beto que foi um dos melhores guardiões da história do Real Madrid, de um Anthony Lopes a bater recordes no Manchester United e num Cláudio Ramos que interessava à Juventus para substituir o insubstituível Buffon?

Antes de me despedir, gostaria de deixar uma coisa bem clara: este artigo foi escrito com base em factos, números e matéria irrevogável e que está ao dispor de qualquer um. Com base nos números obtidos em contas matemáticas simples, apenas “espremi” um trabalho feito pelos melhores clubes europeus, formulei a minha resposta a uma questão sensível, onde claramente podemos observar que a altura dos guarda-redes é diretamente proporcional ao sucesso que a sua esmagadora maioria tem no futebol actual.

Existem claro as exceções, que também abordei e não fugi delas.

Por fim, peço desculpa pela frieza com que possa ter tratado deste tema, mas nesta indústria que é o futebol, infelizmente não existem tempos livres para floreados. Continuarei a ficar super entusiasmado sempre que vir um “baixinho” a singrar, sabendo que ali está um verdadeiro campeão, um homem de uma mentalidade muito superior a todo o “comum” guarda-redes.

Que continuemos juntos, a trabalhar para dar oportunidades iguais a todos, deixando depois que a “pirâmide” faça a sua seleção natural, qual “Darwin das balizas”…

Um abraço e boas defesas,

José Maria Monteiro. Treinador de GR – Vitória SC, sub19

 

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