O sensacionalismo desmedido perante um gigante chinês de 15 anos, reforço do Sporting CP. O que esperam do guardião?

Foi capa de jornais nos últimos dias, o reforço do Sporting CP para a baliza na formação de um guardião chinês, Yee Sun Ng, de 15 anos de idade e com 1.94m. Salientar a qualidade do atleta? Não. Era mais importante o sensacionalismo da contratação de um jovem, que se quer com capacidades para a baliza, mais que a sua morfologia mais maturada em relação ao comum. Foi esse o sentido do contratação, a altura registada no Excel que “explode” com os filtros de meia-altura comum a um atleta desta idade e o chamar a treinar por isso? Terá impressionado por fazer o básico e que, por ter esta altura elevada para a idade, levar a crer que consegue adquirir outras capacidades para se ser um futuro guarda-redes do clube? Questões que não serão respondidas, nem são relevantes para o caso, sinceramente. Porque o importante é decifrar a mensagem pelo meio que está pronunciada na imprensa de forma errada.

É sensacionalismo sim, salientar um guardião, por mera referência quantitativa de um dado como a altura. E dizem que impressiona apenas por isso. E porque acontece? Porque em Portugal, e por aí fora, temos a sensação que para ser um guarda-redes tido como referência que tem de ser um gigante, um “Adamastor” que assuste o adversário pelo seu tamanho, que se reveste de um equipamento diferente e de luvas da última geração. E como existe isto, tal como o estereótipo – e em muitos clubes está mesmo tabelado um mínimo de altura para se jogar no clube –  de que um guardião para ser de valor, tem de ser alto, quando se fala em escalões de formação é ainda mais salientado. Dá a sensação que um guarda-redes do escalão de sub16, que é o do referido, que tenha menos 15/20cm não seria enquadrado no dito excel de filtragem de atletas mesmo que tivesse o maior talento. É o maior pontífice da procura da maturação em jovens em vez do talento, como nas escolas se procuram cada vez mais a padronização de pensamento em vez da criatividade de um raciocínio lógico, mesmo que seja um caminho distinto. Na linha de manufactura de pensamento e de acção, tem de ser tudo igual… não havendo margem para desvios, mesmo que possam ser melhores alternativas.

Claro que não é normal alguém de 14/15 anos, e chinês, ter esta altura. É muito, é um facto. E só é perceptível o sensacionalismo da contratação por esses mesmos motivos, caso contrário nunca seria notícia, se por exemplo fosse um português. Há muito o gosto pelo “diferente” em Portugal, e ser alto, com 15 anos e chinês entra nesses critérios. Entendemos que seja notícia por esses motivos, mas é porque a sociedade tem esses estereótipos bem assimilados. Dá quase a ideia, mesmo que involuntária, que se pegarmos num “miúdo” de 1.85m colocarmos nas suas mãos um par de luvas e se o treinarmos algumas das bases de guarda-redes, que pode chegar a um clube de boa dimensão em Portugal na formação. Porque entrou no excel, mesmo que a nível mental seja do mais instável, a nível táctico precário e que a nível físico já tenha atingido a sua maior maturação. Que não seja visto, no futuro, como um activo para o futebol senior do clube, por já ter atingido o seu pico em iniciados/juvenis e o potencial de crescimento como guarda-redes ser mais reduzido, para além das expectativas que se criam no processo de evolução que não são correspondidas ao longo do tempo. É um percurso sinuoso de possíveis contrariedades e mudanças.

Um exemplo claro disto, a nível mundial, é de Milinkovic-Savic que foi contratado pelo Manchester United aos 16-17 anos de idade e nunca correspondeu. Múltiplos empréstimos, a clubes de média dimensão, e poucos minutos teve. Excesso de expectativa no processo evolutivo nas capacidades como GR… e um guarda-redes imensamente maturado desde cedo que impediu um crescimento maior como guarda-redes no futuro. Estes dois aspectos em sintonia geram o insucesso futuro, apesar do aparente e ilusório sucesso de curto prazo.

É perceptível o caminho de clubes com boas bases de dados, com muito poder de escolha, que façam este tipo de discriminação por morfologia, como se de mínimos olímpicos para entrada nas Olimpíadas se tratassem.  Têm poder de escolha e decisão, muitos interessados e os jogadores hoje têm de ser vistos também na óptica de mercado e de valorização como activos. Do género: “Tem mais de 1.85m? Pronto, podemos ver. Tem 1.84m? Não.” Isto acontece em clubes de bases fortes no estrangeiro, com muita frequência. Mais do que possam imaginar… mas entende-se. Mas depois não podem exigir o talento puro na baliza, na decisão, na leitura de jogo, na perfeição da base, quando se discrimina no processo por morfologia e não por talento. Castramos muito talento à partida com base exclusivamente na fita métrica. E há mais ferramentas para analisar, que não partem do excel mas podem acabar nele, junto de outras variantes para a melhor descrição e análise quantitativa ou qualitativa de um guarda-redes. E num guardião jovem, de tão tenra idade que ainda vai ter uma longa escolaridade para a frente, será assim tão crucial a altura, numa altura que apesar de se preparar para a competição, ainda estão a “aprender” a gostar da posição e a saber o que é ser guarda-redes? Será a necessidade do resultadismo na formação que leva à procura do produto mais maturado, mesmo que sejam de iniciados ou juvenis? 

Que este guardião tenha sucesso, até para bem do seu próprio país que abandonou para o próximo ano a restrição de apenas GRs chineses nas equipas da liga chinesa. A aposta no guardião chinês vai ser menor em comparação com o passado, pois se ao Evergrande “apetecer” comprar Buffon, já o pode fazer. E até nesse sentido, para o país que tem défice de guarda-redes de qualidade – pela pouca base que têm no país no treino de guarda-redes, que tem sido melhorada nos últimos tempos com a entrada de treinadores europeus para as bases e equipas seniores – pode ser uma boa referência de futuro. Mas até lá… ainda falta, em teoria, quase média década. Yee Sun Ng vai ter a oportunidade de uma vida a treinar numa academia com bom trabalho de guarda-redes na formação, como a do Sporting CP. Que tenha esse mérito em agarrar este momento.

Aos restantes “opinion makers” e difusores na imprensa? É uma questão de educar que um guardião é mais que altura e que está na altura de se procurar saber mais sobre eles. São mais que tamanho, são jovens/homens de boas e coerentes decisões, em leituras de momentos e lances de jogo feitas em míseros segundos e onde são-lhes exigidos a perfeição em 100 acções num jogo, com e sem bola.

 

Por Gonçalo Xavier, A Última Barreira 

 

 

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