Artigo: Queremos treinar guarda-redes para tomarem decisões ou para vender a imagem?

Por Gonçalo Xavier, A Última Barreira 

Falo, directamente e de forma aberta, de um tema que pode gerar controvérsia. Admito à partida isso. Aceitarei a crítica após fundamentar a minha opinião sobre este assunto dos vídeos “bonitos” ao espectador comum e quase atrozes a quem treina guarda-redes, não pelo conteúdo em específico (o trabalho com os guarda-redes, que é sempre de louvar) mas a forma como se passa a imagem errada da classe dos treinadores.  Não porque não queremos que seja divulgada esta posição específica… mas porque cada video partilhado deste estilo, a chegar a dimensões e alcances mundiais com milhões de visualizações, fica a parecer que é aquilo que é o treino de guarda-redes… e não há pensamento mais errado.

É por isso que surge A Última Barreira, para fazer pensar, educar – talvez – e explorar estas questões tabu, ou não.  

Então, certamente já passaram nas vossas redes sociais e viram treinos com obstáculos, vídeos geralmente curtos e bem trabalhados na edição onde cada ângulo faz tudo parecer perfeito, seja na praia – alguns mesmo dentro de água, em coisas que fazemos em crianças com os nossos pais, porque é natural e algo “familiar” essa brincadeira, principalmente para filhos/pais guarda-redes ou amigos – ou em campo com balizas e áreas cheias de materiais para o guardião se obstruir para defender em altos voos. Esteticamente, são perfeitos. Mas são usados no sentido errado, são usados para vender uma imagem, uma tipologia de video que já se sabe que “vende”. Tanto vende que, depois em efeito bola de neve tal o trabalho de edição de video tão bem feito, que as maiores páginas a nível mundial partilham e acabam na descrição por dizer algo como “isto é um treino de guarda-redes”. Nada mais errado e é aqui que vem a primeira crítica.

Não, isso não é o treino de guarda-redes. Pode ser parte integrante mas, dito dessa forma simplória, dá a entender numa educação e passagem de mensagem errada ao seguidor que é só aquilo. Não é de todo. É algo mais planeado, pensado, orientado para o jogo e na melhoria do guarda-redes em todas as vertentes possíveis, do mental, físico ao técnico. É isto que é o treino de guarda-redes e é sobre isto que deve ser assente todo o trabalho para o guarda-redes. Repito isto, para o guarda-redes.

Porque o treino além de ser feito por alguém e pensado por esse para um propósito, utiliza outros intervenientes. Temos de pensar o treino para o guarda-redes. Será que é esta a base? Nestes vídeos não acho que seja, pelo menos na sua concepção mais lata. Mas é um bom trabalho, em alguns casos, para dar sucesso ao guardião e ele ficar com o ego do tamanho do planeta. Trabalha muitas coisas (descontextualizadas na maioria, na vertente mais analítica e previsível no destino da bola), em diversas componentes, mas fechadas. É bom para ele, os guarda-redes geralmente até gostam disto, de voar sem contexto e decisão. Quanto mais simples a acção em treino, o guardião vai gostar. Mas a longo prazo resulta? Pensemos… há mais que isso. Aqui estão apenas a vender a imagem, mas pode ter utilidade. Dizemos isto porque cada vez que falam do treino de guarda-redes, procuram logo estes vídeos com mais materiais e voos. Mas é tão mais que isso…

O jogo de futebol está cada vez mais complexo. É importante saber adaptar exercícios aos mesmos jogos, onde o estudo mútuo e as interpretações de cada interveniente estão cada vez mais presentes na preparação para o antes (e durante) de um jogo. E além disso… às faixas etárias e o que é exigido para cada atleta de “X” idade em termos mentais, técnicos e físicos. Vamos exigir a um menino de 12 anos a correr obstáculos em voos? Sem ter as bases antes? Sem ele saber fazer um deslocamento, um apoio, um voo, ou saber meter a mão na bola para defender, na técnica e na força? Muitas vezes já incutimos aos nossos jovens o desvio em vez do bloqueio, e são esses vícios que ganham até chegarem a mais velhos (se lá chegarem como guarda-redes, pois muitos perdem-se pelo caminho, por múltiplas razões).

No futuro são esses os guarda-redes onde as bases têm de estar bem cimentadas para se avançar para outros patamares. Daí aceitarmos este conteúdo, descontextualizado, para aumentar níveis de confiança dos atletas… mas com idades mais avançadas e com alguma experiência, tendo já todas as bases adquiridas! É bom. Aquele espírito de sucesso é muito bom para o guarda-redes. Ele sair do treino com “Hey, defendi tanto hoje!”. Isso pode motivá-lo para o treino a seguir e dar passos em frente porque a nível mental está mais forte porque sente-se como tal. Lá está, enquadrar o sentido estético e do espectáculo em prol do guarda-redes, e não da imagem passada num video trabalhado. É diferente, têm objectivos distintos.

No final de um treino até pode ser algo bom. Uns voos para terminar um bom trabalho feito após estimular a base. Em contrapartida, há quem defenda que se deve fechar os exercícios (mais analíticos) no início do treino e terminar com algo mais aberto (mais de decisão). Mas isso vai de treinador para treinador e, principalmente, com o tempo que têm para os guarda-redes e o que querem deles. A determinado momento estes exercícios podem ser bons. Mas na generalidade não serão e há treinadores, que pegam nisto, e aplicam directamente nos seus. Mas porquê? Muitos não sabem se lhes questionarmos. Mas aplicam porque sabem que os GRs adoram e porque é simples de aplicar, sem pensar nas necessidades reais do guarda-redes que estão à frente do treinador que merecem atenções personalizadas e não padronizadas via Youtube. Porque cada guarda-redes… é um guarda-redes, e temos de estar atentos a eles.

Sobre isto, não sou a favor cópia e aplicação em contextos não favoráveis. Por exemplo, estes vídeos, e os mesmos exercícios aplicados a guardiões que nem uma bola conseguem agarrar nem um posicionamento sabem ter. Esses pequenos pormenores, como o alinhamento entre baliza e bola, deslocamento, aproximações ou recuos… movimentos mais comuns num guardião durante o jogo, e não estes voos (apesar de serem estes que ficam na memória… e talvez o simples e bem feito não fique e passe despercebido) que acontecem de forma menos regular. Porque a maioria trabalha em contextos não favoráveis ao desempenho do treino de GR, pela falta de espaço, de bolas, de materiais… e alguns até de guarda-redes! É muito complicado, é extremamente difícil trabalhar-se guarda-redes (aplicando à realidade portuguesa) e há muitos que fazem bem, e muito se deve ao seu empenho em querer saber o “porquê das coisas” e “para onde devem seguir as mesmas”, pelo estímulo dos congressos, formações e estágios que apresentam.

E depois o feedback, tão importante como referido neste artigo do mister João Garcia (ver aqui)…

Como damos feedback a exercícios tão fechados como estes, quando o guardião já sabe que vai para X sítio a bola e ele só tem de se preocupar em chegar lá? É um feedback frágil e pouco aplicado a uma amplitude de variações que existem ao longo de um jogo. Até nisso, por repetirmos exercícios de outros – que podem ter sido desenvolvidos para determinado tipo de necessidade de um guardião que o nosso não tenha – podemos passar mensagens erradas e passar comportamentos e acções dúbias aos nossos atletas. Somos guias de talento e temos de saber potenciar onde existe e o que não existe de forma inata… ir potenciando desde a base. E isso faz-se, trabalhando a base. Não a praticar altos voos descontextualizados, em que apesar de ajudar… não pode ser apenas isto.

“O meu guarda-redes não pensa, só reage”… já pararam para pensar porquê? Porque foi-lhe passada uma mensagem errada durante anos, do que ele via, ouvia ou fazia, e depois reflecte-se na sua abordagem na baliza.

A tomada de decisão

Fala-se tanto nos congressos e formações que temos que treinar o nosso guarda-redes na tomada de decisão. Dito por profissionais. É cada vez mais explorada a tomada de decisão (em exercícios mais abertos principalmente com maior imprevisibilidade nas acções do jogador contrário) e muitos nas plateias concordam. “Queremos guarda-redes inteligentes”, perfeita a ideia. E depois partilhamos e estimulamos desta forma estes vídeos que fazem tudo menos isso. Algo pouco coerente talvez.

Na moderação está sempre o balanço perfeito. Nem tudo é mau, mas se for utilizado da forma errada, surgem os problemas em cima descritos. E não podemos passar mensagens dúbias ao nosso guarda-redes. A mensagem tem de ser limpa, simples, percepcionada por si e coerente. Seguir uma lógica de raciocínio que se transporta ao longo dos treinos na semana e se reflecte no jogo. Assim é um bom trabalho e isto, amigos, junto a um bom planeamento a pensar no guarda-redes e dando o feedback correctivo (ou de valorização)… é o trabalho do treinador de guarda-redes junto dos seus.

Estimulem o cérebro dos guarda-redes, e dos vossos próprios e pensem no que o vosso guardião precisa. Os melhores trabalhos são os personalizados com o nosso guarda-redes, seja ele um apenas ou 5. O treino é a pensar neles. E o nosso sucesso? É o sucesso deles.  Sempre. E beber informação de vários lados não tem problema, temos é de saber aplicar.

E sempre que virem um treino de GR que não meta voos, questionem-se sempre do “porquê” se estar a fazer aquilo e, se tiverem vontade de saber mais, perguntarem o porquê ao treinador. Terão grandes, e saudáveis, discussões certamente. Mas estimulem a cabeça e o pensamento crítico, sempre com o olhar na melhoria contínua interna e de quem está à vossa volta.

Por Gonçalo Xavier, A Última Barreira 

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