João estava entusiasmado com o seu primeiro treino. Já com boa nota no teste de português que era a condição para poder jogar futebol, apressou-se em ir ao centro comercial para comprar o seu equipamento. O seu pai já tinha falado com o clube para onde iria experimentar as balizas e já ficara a saber que teria que levar equipamento de casa. Ora, como nunca jogou à bola, João tinha de comprar equipamentos novos. E ele não se importava nada, já o pai… mas pensava ele que seria por uma boa causa.

Já chegados ao shopping, João experimentou todos os equipamentos e adereços que existiam. Muitos até de outras modalidades, tal a excitação com aquele momento… Levou, depois de muito experimentar, umas chuteiras mais rijas apesar de não gostar muito delas.

– Pai, elas são muito duras. Eu vejo os senhores a jogar à bola e eles têm sempre com muitas cores. Não posso levar umas assim?

O pai meteu a jovem criança a experimentar dois pares de chuteiras para ver quais lhe eram mais confortáveis. Não ligues às cores mas olha apenas para aquelas em que te sentes melhor, dizia.

– Tens razão, estas são melhores. Mas as outras eram giras… ia fazer sucesso!

– Vai pelo conforto sempre. E um bom guarda-redes não se faz do equipamento ser mais ou menos bonito. Se te sentes bem com essas, leva-as. Agora vamos às luvas.

João acabaria por escutar atentamente as palavras do seu pai e escolhia umas chuteiras pretas e largas. Nada que duas meias no pé não fizessem o pé ficar justo ao calçado e, naquela época de frio – em pleno Dezembro – até sabia melhor… estaria mais quente. E ele estava em crescimento e pelo menos daria para mais tempo! Era este o seu pensamento até andar ao corredor seguinte e ver umas luvas que lhe chamaram à atenção…

– Pai, olha estas luvas! São como as do senhor da televisão!

– Sim João, mas não posso gastar tanto dinheiro agora. São muito caras e temos muitas despesas com esta tua nova experiência. Imagina que depois não gostas ou que estragas rapidamente? Tem de ser algo de relativa qualidade mas não muito caro…

João apesar de tímido, tinha plena noção do que era a realidade. Não viveu numa família abastada onde qualquer birra funcionaria em mais prendas para sua satisfação. Mas também não se podia queixar de lhe ter faltado alguma coisa. Os seus pais faziam sempre um bom esforço para dar o melhor a si e à sua irmã. E sempre tiveram. E sempre estiveram do seu lado quando sonhavam além.

– Pronto, vou levar estas. São mais baratas não são?

– Sim. Vamos agora às meias, camisolas e calças….

As luvas que escolheu não eram as melhores e ele mais tarde perceberia isso quando ao fim de dez treinos já estavam rotas. Muito pela falta de qualidade das luvas como também do seu pouco jeito a cair ao chão onde metia a mão no campo de areia e isso desgastava as luvas. Eram laranjas e eles escolheu-as porque tinha visto uma camisola laranja que gostara e que acabaria por levar. Olha aqui pai, estou todo a combinar, dizia João com o seu entusiasmo habitual.

Chegado à caixa de pagamento, João ia com uma nova indumentária, desta vez para o futebol. Ele nunca tinha tido tanta roupa e adereços novos de uma só vez. Aquilo para si era um Natal antecipado. Mas estava confiante e entusiasmado para o treino.

Chegado ao clube, ele preparara-se no balneário. Tímido e com alguns problemas de socialização ainda, perguntou ao pai se podia ajudar a equipar-se. Ele estava a tratar das burocracias para ele poder treinar mas acabou por o ajudar.

– Tens de aprender a vestir-te de agora em adiante. A tua vida está prestes a mudar e não podes estar sempre dependente de nós. Sabes, como o guarda-redes sozinho na baliza, tu agora vais ser um. E isso também implica que te tens de vestir aqui sozinho. Vou-te ensinar como deves equipar-te para estares seguro e confortável, mas de hoje em adiante… serás só tu aqui. Olha o que é se os teus novos colegas te vêem aqui comigo a vestir-te. Não era uma boa primeira imagem pois não?

Estava um frio de rachar e ele estava equipado a rigor. Tinha dois pares de meias, chuteiras com os atacadores presos três vezes, duas camisolas e um impermeável por cima, luvas bem apertadas… pareces um chouriço, dizia o pai a rir-se depois de o equipar.

João juntou-se ao seu treinador e seus novos colegas de equipa e não sabia o que fazer. Entretanto a sua mãe regressara do trabalho e juntara-se com a irmã do João e o seu pai na bancada. Estavam todos lá para apoiar. João estava nervoso mas tinha mais frio que nervos naquele momento. Apetece-me correr e não ficar lá parado, dizia ao treinador. Mas o frio era tanto que recolheram aos balneários para o treinador explicar o que queria.

– Vão correr 5 minutos em circulos, metade para um lado e a outra metade para o outro e quando eu disser juntam-se a mim. Vamos meter duas balizas pequenas com os cones aqui e vão fazer um pequeno jogo. Guarda-redes (apenas dois, e um deles era o João) em cada baliza e o restante dividimos já pelos coletes. Verdes para um lado e laranjas para o outro – João não precisara de colete pois ele já tinha a camisola e luvas laranjas…

Chegados ao pequeno jogo e a equipa de João perdera por muitos. Não era importante o resultado mas deu para ele sentir o que era a baliza e a sua dificuldade. Uma equipa muito feliz e outra triste após o jogo até que o treinador disse que o resultado não importava mas a forma de chegar ao mesmo… com alegria e vontade. Foram felizes nestes vinte minutos? Perguntava sempre o treinador após cada mini jogo.

Não será de espantar que metade respondeu que sim (a que venceu) e a restante que não (a que perdeu)… excepto um: o João. Ele acabara de sofrer muitos golos mas gostou da sensação de estar na baliza. Ele foi o único a divertir-se ali mesmo com a derrota. E esta resposta espantou o treinador que ficou a pensar naquilo…

No balneário, o treinador chamou à parte João:

– Porque estavas tão feliz?

– Porque estava a ser o Buffon! Imitei-o bem? Sei que ele não sofria tantos como eu, mas lá chegarei!

O treinador sorriu imenso com aquela resposta. Para alguém tímido como o pai apontava… era alguém que quando feliz, se soltava e era direto na respostas. E que até tinha alguma graça…

– Sim, não te safaste mal. Vai lá tomar banho que está muito frio e ainda apanhas uma constipação. Até quarta!

João foi então tomar banho a casa. Ainda tinha vergonha de estar com os seus colegas para tomar banho. Juntou-se à sua família que lhe congratulou pelo treino. Mais pelo seu sorriso no final do mesmo do que pelo que fez propriamente em campo. Se ele estava feliz… eles também estavam.

Ainda iam a tempo de jantar todos juntos e de descansar bem. No dia seguinte seria novo dia de trabalho e de escola, voltando assim à rotina. ”

  • Gonçalo Xavier, A Última Barreira
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