“Este guarda-redes é invencível” – é isto que o meu adversário tem de pensar a cada segundo e minuto de jogo. E até fora do jogo, num simples aquecimento para o mesmo ou na entrada para o relvado.

A percepção e interpretação mental, dos nossos companheiros de equipa ou adversários, é essencial para nos guiar a uma acção adaptada ao contexto (neste caso por mera interpretação humana). Os nossos comportamentos variam se tivermos (ou não) confiança nos nossos colegas e se tivermos receio (ou não) dos nossos adversários. E este pensamento aplica-se ao avançado que se prepara todos os dias para marcar golos ou ao guarda-redes que vive para os evitar. É neste último que me foco agora nesta temática.

O que um guardião deve colocar, como sentimento, ao adversário? Será incentivá-lo ou desmotivá-lo? Claramente a segunda hipótese. E como fazer? Sendo o mais perfeito possível… ou parecê-lo. E o papel do treinador é fazer isso. Começando na percepção, citamos Bela Guttmann:

“O treinador de futebol é como um domador, que domina os leões na sua jaula durante o show com autoconfiança e sem medo. No momento em que perde a confiança na sua energia hipnótica, e o primeiro sinal de medo aparece nos seus olhos, já perdeu”.

Ou seja, a primeira intenção após a base adquirida técnica e tacticamente, é meramente de perfil. De um perfil seguro, confiança, equilibrado e sem medo. A imagem que se passa aos seus e ao adversário é essencial ao sucesso. Alguém que, nos pequenos pormenores, como a forma de andar, de fazer um passe, de gritar (ou ausência do mesmo), de estar na baliza, de reagir aos estímulos dos seus adversários, vacile… mostra logo fragilidades ao adversário para este tentar aproveitar rumo ao seu objectivo, o golo.

Mas pelo inverso, pode fragilizar e limitar a acção do adversário no momento de tomada de decisão. Se o guardião contrário não está a largar qualquer bola, talvez eu vá complexificar o meu remate… pode ser este um pensamento do avançado. E esse pensamento é limitativo e diminui a eficácia pelo simples motivo de se complexificar algo que é puramente mental, pois o guardião não irá agarrar todas as bolas… apesar da percepção ser essa.

O treino técnico, físico e táctico é muito importante. Demasiado. Mas o complemento perfeito será o treino mental. Aquela pequena dica para determinado tipo de lance ou momento do jogo que trará tranquilidade a todos, aquela correcta e rápida interpretação do lance que evitará sequer que haja um remate certeiro. Isto e muito mais, sempre com duas intenções: tornar o guardião mais completo e temível e o avançado mais desconfortável. É como no Xadrez, temos de ter a capacidade de entrar na cabeça do adversário antecipando a sua intenção e assim teremos vantagem sobre ele. E isto… talvez seja o mais complexo de treinar e aquilo que poderá trazer mais resultados.

Daí que os vulgo “guardiões de engate” como se diz na gíria popular, são aqueles que a maioria não aponta a um “grande”. Porque não têm a consistência a nível mental para chegar lá. Quem o tenha… terá provavelmente o céu, mais perto do sucesso. Que se treine e estimule o pensamento do guardião, interpretação do jogo e dos jogadores e de todo o contexto. E terão dele tudo para chegar ao sucesso colectivo.

  • Gonçalo Xavier, A Última Barreira

 

 

Facebook Comments