Ninguém, mas literalmente ninguém, está livre da crítica. Mas para ela fazer sentido no sentido construtivo é preciso que a mesma seja fundamentada. E nem sempre acontece.

Indo muito directo ao assunto, pelo tema de entender a cabeça do guarda-redes (e podem transportar este pensamento para qualquer atleta, principalmente de futebol) e a razão das suas acções. Porque é que naquele momento não se saiu? Porque é que colocou a bola longa ao invés de bola curta? Porque desviou para a frente em vez de agarrar… tudo questões tão habituais quanto rotineiras tal a frequência das mesmas…

E a resposta é simples: Nunca há respostas alheias de contextos (análises ceteris-paribus que dita que se deve interpretar uma situação “mantendo tudo o resto inalterável”) por mais que se tente forçar. Existem múltiplos factores que podem influenciar, negativamente ou positivamente, uma decisão. E é sob elas que se deve concluir algo… sob pena de cair por terra tal o défice de argumentação nos seus alicerces.

Falemos do minuto e meio final do jogo desta noite, do Vitória FC 1-1 Sporting CP que ficou resolvido com uma grande penalidade aos 93′ cobrada por Edinho. Deixemos dois momentos desse lance… olhando para Rui Patrício (e não só):

  • Guarda-redes profundo no seu posicionamento quando a defesa está alta;

É algo tão incoerente como com pouco sentido uma equipa como o Sporting, que defende alto, ter um guarda-redes que não oferece na maioria dos momentos o controlo de profundidade devido. Mas é isso que acontece. Rui Patrício, porque lhe é pedido isso no momento defensivo do seu jogo, tem grande parte das vezes um posicionamento seguro e na sua zona de conforto (curta e perto da baliza) não dando suporte ao controlo de profundidade que poderia ser pedido em função da defesa alta.

O posicionamento de Rui, quando o passe longo na profundidade foi feito, era pela zona do penalty. Mas a sua postura foi sempre de recuo imediato ao invés de tentar antecipar. E tudo isto é coerente à luz do contexto, deixando de lado a teoria que podia ser aplicada como mandam “os livros”

  • Vento forte que ia sempre amortizar a bola ao invés de fazer acelerar, aumentando assim a probabilidade de erro, seja na amortização como na aceleração. Torna a trajectória da bola muito inconstante;
  • Minuto 92 e com o resultado em 1-0, tomar atitudes de risco como era esta decisão de possível saída fora da área, não faria sentido. Porque não é algo programado, pelo histórico de jogos e atitudes nos mesmos, e porque não era o momento para tomar riscos mas ser o mais seguro possível. Daí a atitude imediata mal sai o passe longo de fazer o recuo (para um possível ataque aos pés do avançado contrário como tão bem faz).

Se os “livros” mandavam fazer uma coisa, a luz do contexto fazia comportar-se pelo contrário. Daí a importância de entrar na cabeça dos atletas e de questionarmos “porquê?” para se poder criticar. E esta decisão não era assim tão simples para se rotular que devia ter saído. 

  • Guarda-redes a ficar no meio no penalty.

Ficar a meio no penalty… já tinha acontecido com Jonas na Luz há poucas semanas e hoje repetiu-se. E novamente… temos de entrar na cabeça do Rui para entender o motivo:

Na cabeça do guardião o que se podia passar? Como se podia comportar naquele momento? Olhando ao histórico… e ao momento.

  • Este e o penalty de Jonas foram no final do jogo. Pressão toda no adversário no momento da cobrança… logo teriam de arriscar o mínimo possível. Como tal, sendo ambos os jogadores como pé dominante o direito, teriam sempre a tendência de arriscar o mínimo para zonas de conforto para si mesmo. E isto é: para o meio ou para o seu lado direito colocado (lado esquerdo do guardião). E vejam só… Patrício ficou no meio em ambos os penaltis (uma das hipóteses que referimos) e a bola entraria… do lado que apontamos como o mais seguro para um pé direito.
  • Histórico: É predominante para esses locais que Edinho e Jonas normalmente marcam.

Com isto tudo, não vale a pena entrar em teorias e conceitos sem entender os contextos e os momentos para as acções. Entender a cabeça do guarda-redes, e de qualquer jogador, é essencial para tirar conclusões sobre algo. E este é um dos casos em que a teoria podia ditar uma coisa e o contexto o contrário. Como tal, é preciso ter cuidado na redacção de críticas porque, para serem bem fundamentadas, é preciso estarem com uma boa base para não serem facilmente refutadas.

Eu não consigo agir da mesma forma com chuva ou com sol. Será sempre diferente. Também é assim com a minha equipa a ganhar com margem curta ou por goleada. Eu vou agir de forma diferente. Um com mais pressão e outro mais livre. Um campo molhado ou seco terá que me submeter a mudanças e ajustes no estilo de guarda-redes que quero ser e devo ser. O vento, a meu favor ou contra, pode-me moldar na reposição ou no ataque à bola. Tudo isto são condicionantes de acções que têm de ser tidas em conta na análise.

Vamos então tentar começar a imaginar estar na pele dos protagonistas para os entender melhor, no seu pensamento e acção?

  • Gonçalo Xavier, A Última Barreira

 

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