No dia que eu, guardião, quiser a fama no lugar da paixão, tirem-me as luvas.

É o primeiro pensamento que tenho quando absorvo todas as energias à minha volta, das negativas às positivas, e vejo que os princípios que me tornaram louco pela baliza estão-se a deteriorar. É moda, é capricho, é bom para tudo menos para o que devia. A atitude solitária mas feliz. O isolamento em vez da foto para a rede social com uma frase bonita. Essa pode haver, desde que a seguir vá correr para o campo e se atirem de cabeça para o adversário. Palavras vazias quando não complementadas com acções… é cada vez mais isso.

 

É a luva da moda em vez de ser aquela que dá conforto. É a defesa para a foto em vez da defesa segura e intenção de bloqueio para sair a jogar a seguir. É querer sair fora da área porque vemos aqueles profissionais a fazer isso na televisão e queremos imitar, mesmo que não traga proveito algum para a equipa. É usar o penteado mais pomposo e não querer cortá-lo aos pés do avançado contrário para evitar aquele golo no último minuto. É toda uma crise de valores que todas as modas trazem. É a aparência, não é a paixão. É a foto… em vez de viver o momento.

Na vida o ser humano procura ou ser respeitado ou ser sentido. Fisicamente e mentalmente. Os valores que se aprendem num campo de areia ao invés dos actuais sintéticos de última geração e que me fizeram ter marcas nos joelhos que serão eternas e de treinar com lama até à cintura. Esses já não são recuperados… e talvez nem seja suposto. Mas são essas coisas, pequenas coisas, que moldam um crescimento de um jovem. Que aumentam a paixão pela baliza. Quando nada nos era dado e tudo trabalhado para ter. Era isso mesmo que dava.

Ser Neuer é giro. Buffon também. Mas é como moldes, nas acções e nos comportamentos, que suportem toda uma evolução que se quer crescente e humana. Que sejam o João, o António, o Ricardo. Escrevam a vossa história. Aquela que pela qual querem ser lembrados amanhã e não apenas hoje. Vão para o campo e vivam, cada treino e jogo, ao máximo. Sejam felizes. Eu hoje olho para trás e penso: “Cada dia que me poupei de ser apaixonado pela baliza e dei o mínimo para chegar ao jogo fresco, foi cada dia que me entristeci no desporto… que não fui eu. E hoje talvez esteja a ganhar esses dias que não dei tudo… mas agora apenas fora de campo.”

Fui muito feliz em quase uma década de futebol. Sem fotos (ainda hoje procuro fotos minhas de quando jogava e poucas encontro). Se com fotos, que sejam a mostrar uma “mancha” aos pés do avançado adversário com a maior garra e qualidade técnica. Não vivam da fama. Nunca apenas isso. Daquela que vos dá o sustento, monetário e de ego, ou a notoriedade na vossa localidade ou escola. Vão para a baliza, beijem os postes, cuspam nas luvas, usem as calças rasgadas que têm em casa e sejam felizes.

Fazem isso por mim? Se não, pendurem as luvas… como eu pendurei. Eu no dia que deixei de ser útil e feliz numa baliza parei de jogar. Entretanto achei um propósito ainda que relacionado, para manter esta paixão. Hoje talvez seja mais feliz do que quando jogava. Nunca cheguem a pensar isto. Se quiserem a fama por si só, amigos… estão no local errado. Tudo o que não dignifique esta posição, não merece atenção. É boa a quantidade… mas a qualidade será sempre melhor apreciada.

Estamos dentro nisto? Se sim…

Sejam bem-vindos à comunidade das balizas. Apresento então:

Somos directos, feios, temos marcas no corpo, somos solitários e vamos partir a baliza quando sentimos que falhámos com os outros. Não nos escondemos atrás de ninguém e assumimos tudo. Até o que não devíamos.

Lição retirada? Sim? Então… chegaram à melhor posição do futebol e outros desportos colectivos. Bem-vindos e estamos cá para vos receber. Como princípio de só procurar a fama, nem entrem nisto. Não estarão geneticamente preparados para tal se é apenas isso. Ao primeiro encosto contra o avançado contrário, vão jurar para nunca mais. Mas se forem com a cabeça e paixão para tudo na baliza… meus amigos… terão tudo o que de melhor o desporto tem: a valorização humana. O resto? É consequência dos nossos comportamentos.

  • Gonçalo  Xavier, A Última Barreira

 

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