Capitão, Gigi Buffon… hoje deixa-me ser eu a falar. Só hoje e não te peço mais.

Eu não sou muito velho. Aliás, só nestes últimos tempos estarei a descobrir o que é maturidade. O trabalho, a rotina, o esforço, o suor e a devoção nas tarefas. A superação em cada momento e sempre com princípios demasiadamente vincados que possam ser eles, por si só, caracterizadores da individualidade. Não sei, nem nunca saberei, o que é ter o teu sucesso. Não sei, nem nunca saberei, como é influenciar gerações e gerações pelas acções ou palavras. E eu por ti fui, e ainda sou, influenciado. E espero que assim continue esta relação da qual eu nada de te dou e tu me dás muito. Desculpa ser egoísta e não partilhar nada, durante anos, contigo… mas hoje abro a mente, o coração e a minha pessoa para falar de ti.

 

Eu lembro-me de pouca coisa (ou talvez nada mesmo) de como começaste. O primeiro grande impacto que tive, ainda eu chutava bolas a pensar que ia ser avançado e nunca pensaria em ser guarda-redes, foi a tua transferência por recorde de milhões e milhões. Foste pioneiro em tanta coisa e essa é a primeira memória que trago tua. Depois com o acesso limitado à internet, ia guardando memórias das poucas coisas que via tuas. Posters, cromos, revistas, jornais. A mistificação de alguém é exponenciada por estes pequenos pormenores. O pouco acesso à informação fazia com que cada momento era aproveitado ao limite e totalmente absorvido. E foi depois de te ver no Euro’04 que ganhei a vontade de ir para a baliza para te imitar e que no Mundial’06, aquele que venceste e hoje não consegues disputá-lo pela última vez, me fez ter a certeza que tinha escolhido a posição certa e que me iria apaixonar pela mesma como tu fizeste.

Cresci. Contigo a vencer tudo e mais alguma coisa. Com mais informação, muito mais tarde, e eu também mais instruído, apesar de ter deixado de jogar e passar só a analisar e apreciar tudo o que de melhor a baliza carrega, passei a idolatrar-te. Se durante a minha vida toda, em jovem, te quis imitar na vida, hoje em dia eu quero ser uma pessoa parecida a ti. Com valores, a colocar o colectivo sempre à frente da individualidade mas que nunca, mas nunca, desiste de dar o melhor pelo grupo, com ideias, princípios e espinha dorsal.Com frontalidade, com paixão, com amor pelo que faço. E tento aplicar o maior amor a tudo o que faço. Aprendi contigo a dar sempre o melhor de mim. No escritório, na página, na vida. De forma transversal.

Há poucos minutos vi as tuas lágrimas. Eu de italiano percebo pouco mas talvez hoje entenda alguma coisa de paixão. De sentimento e devoção. De sentir a sinceridade. O teu adeus foi assim: inglório. Não por tua culpa, talvez nem por culpa da equipa. Durante anos e anos conseguiste, por via da tua liderança e capacidade de gerir recursos humanos em campo, unir a equipa e levá-la a patamares extraordinários. Já fizeste muito, ninguém te é ingrato. E a maior satisfação que podes ter é, num dia destes, teres um planeta inteiro a chorar o facto de não te despedires do futebol, daquela posição de guarda-redes que valorizaste, no maior palco do mundo. E a chorar contigo mesmo isso.

Eu sei como é o futebol com Buffon. Eu só vi esse futebol. Mas não sei como será sem ti. E esse desconhecido está-me a embater de frente porque eu não quero sequer pensar que isso é uma possibilidade (certa) de acontecer. E haverá facto maior de, alguém que é tido como um dos melhores de sempre, acabar a carreira num ano em que foi o melhor do mundo? Existirá prova mais cabal de quanto te reinventaste nestes anos todos e elevaste o nível, tão alto, que poucos conseguirão tocar lá?

Um obrigado é pouco. Há poucas semanas cumpri o sonho de te ver ao vivo. Tive sorte de ser logo no teu último ano antes de pendurares as luvas. Mas apreciei cada segundo. Obrigado por tudo, Gigi. Obrigado por me teres deixado falar desta vez.

Deixo só aqui as tuas últimas palavras:

“This was my last game for Italy. I’m sorry. We are sorry.” – Gianluigi Buffon.

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