#7 À conversa com… Rute Costa (Futebol Feminino SC Braga)

(Entrevista conduzida por Frederico Hilário)

  1. Para começar gostaríamos de saber, quais são as tuas origens?

Apesar de ser natural de Famalicão, resido nos arredores da cidade de Barcelos. Foi nesta cidade que iniciei a minha atividade desportiva na área do Voleibol e posteriormente, onde tive a minha primeira experiência federada no Futebol, representando a CP de Martim por duas épocas desportivas.

  1. Porque escolheste jogar futebol? E logo numa posição tão específica como a de guarda-redes?

Desde os 10 anos que jogava Voleibol, desporto que sempre me fascinou e no qual tinha muitas ambições. Apesar de no meu ano de júnior ter tido uma proposta de um clube de referência nacional, os meus compromissos escolares não me permitiram aproveitar essa oportunidade. Nesse verão, participei por brincadeira num torneio de futebol de 5 e uma das raparigas da equipa, incentivou-me a ir a um dos treinos de captações no clube onde ela jogava. Não consigo recordar-me da razão que me levou a fazê-lo, mas a verdade é que o fiz e acabei por ficar no plantel. Durante esse ano estive a treinar como avançada. No final do ano tínhamos um torneio sub-18 e as nossas guarda-redes eram todas mais velhas, por isso o treinador foi experimentando algumas atletas na posição para conseguirmos levar alguém que pudesse adquirir algumas bases naquele curto espaço de tempo. Acabei por ser a escolhida e no final do torneio, o meu treinador perguntou se gostaria de ficar como guarda-redes. Recordo-me perfeitamente de apenas lhe perguntar o que era preciso e ele respondeu  rapidamente que apenas precisava de umas luvas, passando a fazer parte do grupo das guarda-redes na época seguinte.

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Foto: Daniela Gomes

  1. O que a tua família achou da tua escolha?

No início os meus pais não se interessavam muito pelas minhas escolhas, preocupavam-se apenas que estivesse bem e fosse feliz no lugar que fosse. Hoje reconhecem que a posição do guarda-redes é provavelmente a mais complicada, mas também sentem que estou à altura dos desafios.

  1. Como te caracterizas como guarda-redes?

É sempre complicado fazer uma auto-análise daquilo que somos. Sinto-me satisfeita com aquilo que vejo quando olho para mim enquanto guarda-redes. Sou muito trabalhadora, exigente, perfeccionista. Gosto de trabalhar sempre no limite e com a máxima intensidade possível, atendendo a todos os detalhes. Sou uma comunicadora nata, coletiva e altruísta. No fundo, não há uma dissociação daquilo que sou como pessoa para aquilo que sou como atleta. As características apenas se revelam de forma diferente em campo, uma vez que estão enquadradas com o contexto.

  1. Nos clubes em que passaste, o que cada um te deu de melhor?

Em todos os clubes por onde passei reconheço a existente de elementos que contribuíram de forma positiva e preponderante para o meu desenvolvimento. Neste sentido, a CP Martim possibilitou a descoberta de algum talento para a posição de guarda-redes e consequentemente, a primeira experiência na área. No Boavista FC desenvolvi a capacidade de trabalhar no limite, o gosto pelo beleza dos movimentos e o espírito de sacrifício. A passagem pelo Clube de Albergaria permitiu compreender que numa modalidade coletiva como o Futebol, as individualidades podem ganhar jogos, mas nada se compara a um verdadeiro espírito de equipa. Por fim, o primeiro ano ao serviço do SC Braga foi uma experiência verdadeiramente enriquecedora, na medida em que possibilitou todas as condições para o desenvolvimento das minhas capacidades e competências.

  1. Olhando para o treino: que tipo de treino preferes? Mais físico e específico ou mais integrado com a equipa?

O olhar que tenho acerca do treino, carateriza-o segundo uma experiência o mais completa possível para que os atletas possam responder positivamente aos problemas que o jogo coloca. Por isso, entendo que o processo de treino deve assegurar estas três componentes, privilegiando a componente física porque potencia a minha performance em termos de capacidades motoras, a componente específica porque me aproxima de um nível de execução e beleza de movimentos que pretende atingir e o trabalho integrado com a equipa, porque o guarda-redes não é um elemento à parte.

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Foto Selecções de Portugal

 

  1. Porque escolheste continuar os estudos e fazer um mestrado? E o porquê de teres escolhido esse curso?

A primeira razão e a mais óbvia é que em Portugal não era possível viver do Futebol Feminino. Por outro lado, antes de sonhar no Futebol já existiam outros sonhos em mim. Por conseguinte, terminar os estudos era uma ideia bastante clara na minha cabeça. Não me permito abandonar um único sonho que seja e por isso, cumpri aqueles que me estavam reservados no âmbito académico.

  1. De que maneira os estudos influenciam o teu rendimento nos treinos e nos jogos? Tanto positivamente como negativamente (se isso existe).

No meu entendimento, as constantes tentativas de conciliação entre os estudos e o futebol permitiram-me crescer muito em todos os sentidos. Passei por momentos muito complicados, os quais apenas foram superados com muita dedicação, trabalho, sacrifício e capacidade de resiliência. O facto de a minha área académica estar associada às Ciências do Desporto e posteriormente, Educação, contribuiu para a aquisição de conhecimentos e competências que potenciaram o meu desenvolvimento desportivo.

  1. Quais os teus pontos fortes? Em campo e nos traços de personalidade?

Na minha opinião, sou uma guarda-redes segura, com uma excelente capacidade de comunicação, muito forte entre os postes, com uma boa capacidade de impulsão, explosiva e destemida. Tento sempre ter uma postura calma e ponderada, não tolerando injustiças. Tenho uma grande capacidade de trabalho, dedicação e espírito de sacrifício. Nunca estou satisfeita com o trabalho que desenvolvo, procurando sempre atingir patamares superiores.

  1. Como está a ser a passagem num clube de grande dimensão no futebol feminino como o Sporting Clube de Braga?

Sem dúvida a melhor experiência profissional que podia ter tido. O clube apostou na modalidade e proporcionou todas as condições para que as jogadoras possa desenvolver as suas capacidades ao melhor nível.

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Jogo no Estádio de Alvalade pelo SC Braga

  1. Como reages a momentos de grande pressão?

Por norma lido bastante bem com esses momentos. Se acreditamos no nosso trabalho e o fazemos da melhor forma possível, não temos razões para nos sentirmos desconfortáveis quando estamos a ser postos à prova.

  1. Tens alguma superstição antes de entrares em campo?

Não, nunca tive. Confesso que até me faz confusão não depositar o resultado de uma prestação somente no trabalho que temos vindo a desenvolver.

  1. Como te sentiste ao ser chamada para a seleção nacional pela primeira vez? Que emoções sentiste ao estreares-te pela seleção portuguesa?

Numa primeira instância senti-me aliviada, uma vez que era algo que há muito ansiava e para o qual tinha vindo a trabalhar incansavelmente. Posteriormente, surgiram um conjunto de emoções muito positivas pela possibilidade de representar o meu país, fazer cumprir o meu sonho ao mais alto nível. Na estreia houve um misto de sensações, estava a exaltar de alegria por finalmente ter a oportunidade de cumprir um dos meus maiores propósitos desportivos e estava de certa forma limitada pelo peso da responsabilidade de carregar aquele símbolo ao peito.

  1. Como foi a experiência de participar no Europeu?

A possibilidade de participar no Euro foi provavelmente a melhor notícia que recebi, tendo em conta que estava a integrar as convocatórias à pouco tempo. Neste sentido, aproveitei a experiência para crescer enquanto atleta e sobretudo, para desfrutar de um momento único que pude partilhar com algumas das melhores jogadoras da Europa.

  1. Quais as/os guarda-redes que tens como ídolas/os?

Por engraçado que parece não tenho nenhuma referência na baliza. Como é óbvio admiro o trabalho desenvolvido por alguns talentos nacionais e internacionais, quer no feminino, quer no masculino. No entanto, o meu ídolo sempre foi o Andrés Iniesta por ter uma inteligência de jogo acima da média e pela capacidade que tem de embelezar o futebol de posse.

  1. No treino, como deve ser o treinador de guarda-redes?

Na minha opinião, o treinador guarda-redes deve assumir uma postura que seja o reflexo da sua metodologia de treino, sendo que esta deve atender de forma particular as necessidades dos atletas. Portanto, o treinador tem que ser alguém que através do uso correto as suas características pessoais e profissionais, eleve constantemente as capacidades dos seus atletas a um nível superior.

  1. Saindo um pouco da temática do futebol… como está a ser a experiência de seres madrinha?

Verdadeiramente única e inexplicável. Penso ter sido uma das melhores coisas que me aconteceram a nível pessoal. É muito bom ter mais um membro na família, sobretudo na condição de madrinha que é como uma segunda mãe.

  1. Como te caracterizas como pessoa, quando tiras as luvas e chuteiras?

Como disse anteriormente, não julgo que haja muitas diferenças em relação aquilo que sou dentro e fora de campo. Como é óbvio, há características que são transversais e outras que pela variabilidade dos contexto não estabelece qualquer relação. Por isso, a Rute que toda a gente vê dentro de campo é a mesma Rute que está em qualquer outro local, comportando-se em função do local e das pessoas envolvidas.

  1. Quais as pessoas que, se pudesses, voltarias a trabalhar ainda hoje?

Felizmente, posso afirmar que voltaria a trabalhar com todas as pessoas que passaram pelo meu percurso desportivo. Ainda assim, importa mencionar uma em particular, cuja influência foi preponderante para chegar ao patamar onde cheguei. Essa pessoa é o mister António Pontes, treinador de guarda-redes que trabalhou comigo à parte após a minha lesão e posteriormente, quando já me encontrava ao serviço do Clube de Albergaria.

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Foto com o mister António Pontes

  1. Onde te vês daqui a uns anos?

A vida é cada vez mais imprevisível, por isso tenho construído o meu futuro de forma a que possa seguir vários caminhos. No entanto, no futebol gostava de me ver a representar as cores de um grande clube europeu.

  1. Qual o futuro do futebol feminino? Sentes que estás a fazer parte de uma mudança de paradigma (para melhor)?

Prevejo um futuro risonho para o Futebol Feminino, reconhecendo que tem havido um esforço por parte das instituições ligadas a está área em proporcionar todas as condições para que haja um crescimento sustentado da modalidade. Sim, é com enorme satisfação que faço parte de alguns momentos históricos para o Futebol Feminino.

  1. Para terminar poderias deixar aqui algum conselho as gerações mais novas de guarda-redes?

O melhor conselho que posso dar a alguém é para nunca desistir dos seus sonhos. Quanto às gerações mais novas de guarda-redes, reconheço que faz todo o sentido procurarem os melhores exemplos para definir metas e objetivos, mas não deve restringir as suas ambições a isso, deve procurar ser melhores do que as suas melhores referências.

Agora uma opinião de quem a conhece….

E como não podia deixar de ser, tal como seria de esperar por não haver pessoa que melhor conheça no futebol a Rute… Eis a opinião do mister António Pontes:

(Como é a Rute?) A nível pessoal a Rute é uma miúda muito educada, muito responsável, extremamente inteligente, com uma personalidade forte e com ideias sempre bem definidas sobre aquilo que quer para o futuro. A nível profissional tem uma capacidade técnica e física muito forte… Talvez as capacidades que mais me surpreenderam nela… E é muito focada nos seus objetivos… Uma trabalhadora incansável… E sempre com uma vontade enorme de aprender e evoluir.

(Sobre a ida para o Braga) Quando soube da ida da Rute para o Sporting Clube de Braga reagi com alegria, mas também com naturalidade pois sabia que com a entrada do Braga e do Sporting a Rute teria de ser uma forte opção para essas equipas, mas sempre apontamos mais ao Braga até pela proximidade e pelo facto da Rute estar a finalizar a faculdade e seria sempre mais fácil ficar pelo Norte.

(Sobre a chamada à selecção portuguesa) Foi uma alegria enorme quando soube da chamada da Rute para representar a seleção! Era um dos objetivos que tinha traçado … E que deveria ter chegado mais cedo… Penso que já na época anterior merecia ter tido esse prémio.

(Sobre a época no Braga) Esta época no Braga foi uma época fantástica a nível pessoal… muito regular e sempre com um nível elevado… só faltaram os títulos, infelizmente é assim… Ainda agora foi chamada para o euro e isso acaba por ser um prémio embora eu sempre lhe tenha dito que haveria de chegar há seleção apenas e só pelo seu valor e pelo seu trabalho.

(Sobre o futuro) Quanto ao futuro vejo a Rute nos melhores clubes nacionais… eventualmente numa experiência no estrangeiro num bom clube em Espanha por exemplo… E vejo a Rute na seleção durante muitos anos. Estou certo de que será (já é para mim) uma referência no futebol feminino nacional.

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