Hoje sem mais demoras, regresso ao panorama literário sobre um mundo cuja minha identidade é de notória igualdade com o meu carácter e maneira de estar. Apresento-me apenas mais pobre. Apresento-me sem treino. Não podemos imaginar o quanto isso custa e somos apenas meros treinadores neste momento. Temos de pensar na ‘’big picture’’ temos de perceber que enquanto treinadores duramos 30/40 anos no activo ou até mais mas enquanto jogadores a decisão de parar de jogar ou até mesmo o inferno do fim de contrato e do arranjar um novo clube pode ser um desgaste mental enormíssimo. E é precisamente isso que venho hoje expor junto de uma situação que vivi bem de perto.

O Futebol enquanto modo de vida é uma droga mental que consome todas as células presentes no nosso cérebro. Consome de tal ordem os seus apreciadores que estes só vêem já jogadores, equipas, dados e informações à sua frente. Consome os jogadores de tal forma que já só pensam no treino, no jogo de domingo, na champions, na liga Europa, no campeonato nacional de seniores, seja no que for, pensam, vivem, respiram futebol. E nisso nenhum seguidor da UB difere em nada!

A pequena diferença é que temos a particularidade de pisar os mesmos relvados que estes gr’s, lembro-me da minha experiência de ter jogo na Cidade do Futebol e ter adorado cada minuto de aquecimento que dei com os meus gr’s e para eles não se descreve pisar aquele relvado durante 90 mins com uma pressão enorme, com uma convicção de alto gabarito e sobretudo com uma mentalidade que sempre ajudei a cultivar – ‘’ Lá dentro é para matar.’’

Não consigo fazer magias e prever nada que se pareça mas as leituras físicas dão-nos todas as informações necessárias para perceber como está o estado dos atletas, dos treinadores e no fundo das pessoas. Mas o mais importante e ai é que está o segredo, os pequenos pormenores fazem a diferença… o tom de voz, a maneira de falar, padrões diferentes de comportamento… são outro tipo de informação que nos faz equacionar o quão está mesmo o jogador apto mentalmente e fisicamente para uma partida.

Contudo o maior tema é o desgaste. Jogar numa equipa durante uma época é duro. Sobretudo quando se é GR. Ainda mais quando se é novo…

Portanto como para todos nós, a mudança é sempre estranha. Tentei durante uma quantidade de tempo trabalhar um gr de capacidade altíssima, de um potencial extremamente bom. Embora e com o conhecimento do mesmo, o mental fosse um recurso que precisaria de ser trabalhado. Os sonhos comandam a vida mas a inteligência concretiza-os. Somos fieis a certos parâmetros e eu em nada difiro. Tal como os Xutos, fiz ‘’à minha maneira’’e treinei como eu quis. Com a base que eu quis. Com a avaliação de erro e método que eu acredito. A verdade é que as propostas custam a aparecer mesmo quando a qualidade é boa. Regras de inscrição, vagas ocupadas um dia mais cedo, enfim catrefadas de situações que angustiam só de relembrar e o tempo não para… ele dita o tempo e os prazos foram feitos para serem cumpridos. Logo no fim do mercado, este jogador tinha de ser colocado. Prometi a mim mesmo que não desistiria. Ia até ao fim do mundo para que continuasse a treinar fisicamente, especificamente, mentalmente e sobretudo não desesperasse porque só existe um problema quando não existem soluções.

Ao fim de algum tempo um convite formalizou-se e todos os treinos e contactos não foram em vão e mesmo para mim, treinador fora do activo consegui perceber a alegria deste menino a quem tenho o prazer de chamar amigo. Senti que a minha utilidade enquanto pessoa, enquanto treinador foi precisa e utilizada. Senti sucesso sem ter nenhum. Aliás o único com clube é ele , não sou eu! Mas a sombra não me inquieta, pelo contrário anima-me. O Sucesso de quem eu quero que suceda traz-me a energia necessária para não pensar em desistir, porque os sonhos são para serem lutados com inteligência mas a vida não olha a QI’s.

  • Ivan Moreira

 

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