“Sê Van der Sar!” – Dizia Frans Hoek a Robert Enke no Barcelona

Aquando da passagem de Robert Enke pelo FC Barcelona, em 2002, após anos felizes – a nível individual – no SL Benfica, onde se valorizou como pessoa e guarda-redes, teve como treinador específico Frans Hoek que estava na equipa técnica de Louis Van Gaal. O objectivo era claro: vencer com um futebol atraente à boa moda holandesa, privilegiando a posse de bola de forma apoiada mas ofensiva. E isso chegava até ao guardião.

Com Bonano (argentino) e o jovem Valdés (espanhol), Enke (alemão) completava um lote de guardiões diferentes no estilo e na escola. Do mais ofensivo, Valdés, ao mais defensivo, Enke, passando por Bonano que estava no meio. Nem era um guardião ofensivo nem defensivo. Era equilibrado. E num clube desta ideologia ofensiva e sempre “à frente no tempo”, o guarda-redes tinha preponderância além de defender… tinha de saber jogar fora da área em posse ou corte na profundidade. E com isto, mesmo com a notoriedade internacional de Bonano e de Enke como jovem promessa de uma das mais conotadas escolas de guarda-redes do mundo, foi Valdés (então um menino), que assumiria a baliza do colosso espanhol. Tudo isto porque se adaptava melhor à ideologia do clube no seu modelo de jogo, todavia pelos longos anos de formação em La Masia. E mesmo com os erros, continuava a ter a confiança da equipa técnica. E nem dava hipóteses aos restantes.

Robert Enke com o ainda jovem Valdés.

Quando Enke chegou ao Barcelona e se deparou com Frans Hoek, citando Ronald Reng em “A Life too Short” que retrata a vida de Robert Enke até ao trágico acidente que lhe tirou a vida, teve de ouvir as ideias extremas de guardião ofensivo… da qual não estava habituado. Ele era tipicamente um guarda-redes defensivo. Seguro nas suas acções, em cima da linha de golo, só saia quando tinha certezas. Mas era perto da baliza que era realmente forte com posicionamentos e uma capacidade de deslocar-se dentro da baliza bem acima da média. Com o passar dos anos, com o aumento da confiança e de incentivo para tal, começou a soltar-se mais fora dos postes. Porque para ser um guardião moderno, é preciso ter uma confiança em si e nos seus colegas de assinalar. E Enke, em si, não tinha auto estima e confiança na baliza pelos grandes problemas depressivos que teve (será abordado mais à frente). E também, além de confiar em si, tem de confiar no processo e de quem o treina. E esse… pedia que Enke fosse Van der Sar e não o Robert Enke.

“Sê Van der Sar”, gritava em treino Hoek para Robert. O que significava isto? Que se soltasse, que pedisse a bola para organizar e que cortasse bolas na profundidade após longos passes dos adversários. Mas ele não era assim naquele momento e não se aprende uma nova rotina que o descaracterizaria do nada. Ele não tinha essa escola, não podia ser exigido que fizesse algo que nunca aprendeu. E muito menos que apresentasse o rendimento ao invés das dificuldades previsíveis. Não é humanamente possível. Até por uma questão motora ou psicológica. Não se consegue, pelo menos a curto prazo. E o Barcelona pede rendimento a curtíssimo prazo para quem quer ser opção para a titularidade.

Os guarda-redes quando são obrigados a algo, em prol de uma ideia que não os ajuda, têm tendência a perder motivação para tentar pelo menos. Nestes casos, é preciso o treinador adaptar-se ao guarda-redes que tem em mãos. Tem de o saber gerir, na expectativa e no fracasso, tal como terá de saber passar a mensagem. E não é exortando um guarda-redes (brilhante como Van der Sar) em todas as acções ofensivas no treino específico e quando o fracasso aparecia em Enke que iria resultar. Ninguém gostará de ser comparada e muito menos moldado para ser alguém que, por acaso, teve sucesso. É preciso respeitar o próprio atleta e ser ele mesmo. Buscar referências é positivo como complemento à base de trabalho, até para observação e busca da perfeição, mas quando usadas como moldes… pode-se perder um atleta. Um atleta que, para chegar ao Barcelona, terá que ter inevitavelmente qualidade. E foi essa que o levou até ao topo, na altura, logo… porquê deixar de ser Enke? O resultado foi simples: desmotivação, retrocesso no processo evolutivo de melhoria de capacidades, falta de vontade até de treinar. E esta é a consequência directa de uma mensagem mal passada e da inadaptação do treinador específico (e até principal) ao guarda-redes que tem em mãos e que tem de gerir como atleta e até um activo. E a gestão perfeita nestes casos pode tornar um caso de aparente e previsível insucesso a algo grandioso. Tudo na devida proporção pode ter resultados benéficos e nunca nefastos. E o melhor Robert Enke foi quando foi… Enke apenas, e não Van der Sar. E ainda hoje é respeitado como tal, na sua personalidade, virtudes e até os defeitos.

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