Não só nos Guarda-redes, como em outras posições existem diversas etapas que vão variando consoante o escalão etário. Ao raciocinarmos e em jeito de cultura geral, podemos perceber que um treino para um sub 19 nunca poderá ser igual para um sub 13 por exemplo, existe uma variabilidade de aspetos que irão ser trabalhados nos sub 19 que não se irá adequar a uma criança de 13 anos.

Para Voser et al. (2006) nas primeiras fases de aprendizagem, devem-se construir progressões que respeitem as características biopsicossociais das crianças e que promovam o desenvolvimento da criatividade, principalmente porque é sabido que os jovens, com maior domínio de movimentos apresentam uma maior variedade de ação motriz.

O mesmo Voser et al. (2006) salienta que numa primeira fase, dos 6 aos 9 anos, devemos deixar as crianças experimentarem várias posições e também outras modalidades desportivas sempre que possível, para que depois, comecem a realizar movimentos específicos da posição de guarda-redes.
Dividindo pelo escalões de formação constatamos que:

Pré-escolas (até aos 9 anos), as crianças ainda se encontram à descoberta do futebol, ou seja, o treinador deve-se mostrar recetivo a uma mudança de posição, uma vez, que a criança ainda não tem uma ideia pré-definida daquilo que quer ser, podendo optar por outra posição ou até por outra modalidade. Neste escalão, é importante que o treinador vá ensinando, através de jogos didáticos, sempre com bola, alguns dos princípios básicos das técnicas do Guarda-Redes (posição base, bloqueios altos, médios ou baixos, quedas), bem como, desenvolver e dar ao jovem guarda-redes diversas vivências motoras, mais especificamente com relação aos movimentos naturais (andar, correr, saltitar, etc.). É importante não realizar exercícios muito complexos e extensos, dado que as crianças destas faixas etárias apresentam baixos índices de concentração e fraca acumulação de muita informação, devendo apostar em exercícios curtos mas ricos em desenvolver a criatividade do atleta porque o mais fundamental nesta fase é que se divirtam e se sintam motivados ao ir treinar.

Escolas (U10/U11), o guarda-redes participa pela primeira vez no futebol federado, o que por si só vai fazer com que sinta motivado ao enfrentar a competição. Neste escalão, o treinador de guarda-redes deve começar a aperfeiçoar as habilidades motoras básicas, que se iniciaram em pré-escolas, sendo que terá de aumentar ligeiramente a complexidade, exercícios curtos apresentam-se como uma ótima solução, recorrer à escada pliométrica, ao contorno de estacas para desenvolver o equilíbrio, coordenação e agilidade parece-me uma ótima escolha. Também exercícios com cores ou números tornará o treino mais rico em desenvolver a velocidade de reação, concentração, raciocínio do guarda-redes o que o leva a tomar decisões em milésimos de segundos. A técnica base terá de ser criada e aperfeiçoada nestas idades uma vez que, quando mais cedo o guarda-redes aprenda os gestos técnicos corretos, como bloqueios, quedas ou reposições, evitará possíveis défices em idades mais avançadas. Por fim, inicia-se os aspetos táticos inseridos com a equipa, importante o posicionamento em função da bola, perceber as posições dos colegas e onde se irá inserir na equipa.

Infantis (U12/U13), será uma das fases mais difíceis devido ao facto, de ser a transição do futebol de 7 para o de 11, ou seja, campo maior, distâncias diferentes e a baliza maior. O treinador já deve ter conseguido um bom nível técnico no guarda-redes, porém nunca será demais corrigir os possíveis vícios de execução ou evitar a ocorrência dos mesmos. Nestas faixas etárias, destaque é atribuído às qualidades coordenativas e à especificidade que deverá chegar a um volume considerável, ao final desta etapa, ou seja ao final dos 13 anos. É importante desenvolver atividades para o desenvolvimento técnico e no início desta fase os exercícios físicos devem ter um carácter mais geral (particularmente resistência geral). Combina-se a incorporação gradual da dimensão física com os aspetos técnicos. Com relação aos aspetos específicos da preparação dos guarda-redes torna-se fundamental que o jovem atleta tenha uma grande variabilidade de ações motoras próprias da sua posição. Nestas idades, o treino já não será tão lúdico exigindo um nível superior ao dos escalões mais baixos. Importante e uma das capacidades que se inicia nestas faixas etárias, é a Tomada de decisão (ex: sair ou não ao cruzamento, qual a mão mais indicada para a defesa em contexto de remate, na reposição onde e como irei colocar a bola), ou seja, saber qual a melhor opção a tomar para cada momento, sendo que o treino irá consistir no aperfeiçoamento técnico, bem como consolidação de capacidades motoras como a coordenação, o equilíbrio, velocidade de reação e resistência específica. Cada vez mais, o jovem guarda-redes irá ter de raciocinar em termos técnicos como em termos táticos (saber onde se posicionar nas determinadas fazes do jogo) e será também importante o treinador conseguir desenvolver nele uma boa capacidade psíquica em que consiste aceitar o elogio ou a crítica e no fundo, aprender a errar.


Iniciados (U14/U15), numa idade onde já existe competição a nível nacional, o guarda-rede deve chegar a esta fase já com o nível técnico bem consolidado. O treino irá aumentar no que toca ao rendimento das suas capacidades físicas (velocidade, força explosiva, potência, resistência, equilíbrio, coordenação), como vista ao aperfeiçoamento das mesmas, mas tendo sempre em atenção que é nestas idades, o processo mais crítico de maturação. O treinador de Guarda-Redes deverá trabalhar ações e situações reais às da competição para assim desenvolver no guarda-redes um vasto leque de recursos técnicos e táticos que o irão levar a tomar decisões acertadas em jogo. Daí que, Tamarit (2007) refira a importância da repetição sistemática, fazendo aparecer uma grande percentagem dos comportamentos que queremos que sejam realizados pelos jogadores. Para isso, devemos condicionar o exercício, para que surja repetidamente o comportamento pretendido (Tamarit, 2007). Cada vez mais importante, a comunicação com os restantes companheiros de modo a comandar e a coordenar a equipa.

Juvenis (U16/U17) e Juniores (U18/U19), embora existam algumas diferenças no que tocam a estes escalões, é certo é que aqui já começa a ser preparada a transição para o futebol sénior, assim, o Guarda-Redes deverá ter condições de demonstrar as suas potenciais competências de forma efetiva. Devem-se enfatizar todas as qualidades do Guarda-Redes (dimensões tática, técnica, psicológica e física). É importante que ele consiga apresentar bons resultados nesta fase, pelo facto de ser decisiva para uma futura transição bem-sucedida para o plantel sénior, devendo mostrar todas dimensões competitivas da sua especialização e estar preparado para jogar. O treino deve consistir em rendimento físico (exercícios de pliometria, velocidade, potência, entre outros) em junção com o técnico (já com uma consolidação deste processo), sendo que aqui é dado cada vez mais importância ao treino tático, em que no futebol moderno é necessário que o Guarda-Redes se posicione subido no terreno, muita das vezes para controlar a profundidade, ou para ser opção na construção de jogo da sua equipa.
Porém, é importante que na medida do possível o Guarda-Redes treine bem e possa disputar várias competições. O Guarda-Redes continua a evoluir e deve estar sempre preparado para aprender mesmo no escalão sénior.

José Sampaio – Treinador de Guarda-Redes União Nogueirense F.C.
Website: josetsampaio.wixsite.com/goalkeepercoach
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