Continuação do artigo “O par de luvas a mais (parte I)”  – ver aqui 

Outra vertente que cada vez mais assombra colegas que estão num patamar de rendimento , nomeadamente a nível senior, acontece por vezes trabalhar com atletas de diferentes idades e em diferentes fases das suas carreiras. É ai que somos postos a prova e temos um trabalho difícil mas muito gratificante. A motivação intrínseca eleva nos na busca do detalhe.

 

”  Procurar e estudar o detalhe” Pedro Santos ( FC Barreirense)

É de facto no detalhe que nós marcamos a diferença. É de facto que não é por acaso que gostamos imenso de observar ao pormenor todos os movimentos e decisões em frações de segundo. Se o corpo está bem colocado. Se o pé faz o movimento certo. Se os apoios estão bem colocados em várias situações de jogo. Para nós tudo conta.

 

Como diz Ricardo Pereira é de facto um posição de muito detalhe e pegando nas suas palavras :  É preciso não esquecer que o papel do Treinador de Guarda-Redes é o de recusar protagonismo pessoal e saber estar na sombra de 3 ou 4 homens que estão a vivenciar situações completamente distintas na sua carreira, uns jogam outros não, uns são jovens outros nem tanto, uns têm “um jogar” assente na análise, antecipação de cenários, rápida interpretação, e tomada de decisão, outros têm maior rendimento a “reagir apenas ao que já aconteceu”.

Será tanto mais hábil e competente aquele treinador que tiver a capacidade de extrair o maior rendimento e evolução de cada um destes homens, mantendo-os focados e motivados no seu desenvolvimento profissional e pessoal.”

 

Ao qual o Mister do Amora (Pedro Cardoso) acrescenta : ” Nesta realidade o mais importante é o rendimento e conseguir perceber como potenciar todos de igual forma sabendo que precisam de coisas diferentes.

Na minha opinião o mais importante é perceber em que realidade estamos inseridos e conseguirmos rapidamente adaptar e ajudar os nossos GRs”

O passado, presente e futuro do treino

Disciplina e empenho. É assim que caracterizo esta mudança de paradigma nacional e talvez internacional ao nível do nosso tão amado treino. É preciso compreender as nossas raízes.

E nada melhor que as palavras de alguém que esteve presente nesta mudança de realidade. Como antigo praticante e agora como atual técnico de grande qualidade, Ricardo Pereira com passagem notória pela Formação do Sport Lisboa e Benfica. Nas suas palavras sobre o treino diz :

“Ouvimos frequentemente da parte dos vários agentes do Futebol dizer que o Treino de Guarda-Redes evoluiu muito nos últimos anos.

Estou de acordo mas sou da opinião que no passado se fizeram também muitas coisas boas com os Guarda-Redes, apesar de que ainda de uma forma muito empírica. Olho sempre para esse passado procurando perceber o que ele tinha de bom e procurando-o integrar à luz dos conhecimentos actuais e tenho a convicção de que entre outros aspectos se “deu” aos nossos Guarda-Redes do passado mais capacidades volitivas do que hoje lhes detecto, nomeadamente ao nível da agressividade competitiva. 

Todavia para percebermos que mudanças ocorreram realmente era interessante pesquisar o que  o que fazia Frans Hoek em 86/87 com Stanley Menzo (23 aninhos), ou Vítor Damas em 88/89 com o Jorge Vital (27 anos), ou Manuel Galrinho Bento em 92/93 com Silvino, Neno e Pedro Roma, ou Jozef Mlynarczyk em 94/95 com Vítor Baía (25 anos) apenas para citar alguns exemplos onde poderemos incluir o Mister Alfredo Castro (Boavista, 2000/2001), Jorge Vital (Braga, 2001/2002), Hugo Oliveira (Rebordosa, 2002/2003), Luis Esteves (Vitória SC, 2003/2004), Ricardo Peres (Sporting, 2004/2005) entre tantos outros colegas de profissão/paixão. E mais interessante ainda seria confrontar a evolução destes excelentes Treinadores, ou seja, como treinavam há 10/20 anos atrás e como treinam agora. Isto sim permite perceber a evolução de uma forma concreta e não apenas intuitiva.”

Tantos anos se passam mas contudo muitos princípios se mantiveram. Todo o treino inovador é bem vindo a luz daquilo que se pensa. Anteriormente fazia-se um trabalho diferenciado. Um trabalho tão mais simplificado talvez. Mas nada disso tira crédito pelo mérito. A história faz dos antigos os recentes, por serem lembrados como pioneiros, por descobrirem e antecipadamente alcançarem conhecimento que hoje passa para a atualidade do treino, embora muito mais evoluído, existe muitos princípios de várias áreas desportivas que se aplicam dependendo da ideia de cada treinador. Acredito muito que a decisão da intervenção mais rápida ou a as intervenções seguidas de decisões alternativas , a luz do futsal por exemplo em que é tudo muito rápido pode ser um bom instrumento de trabalho.

Por outro lado o treino atual difere de cabeça para cabeça, mas a opinião vigente será sempre as dos Guarda-redes com quem trabalhamos. E assim sendo recolhi a opinião de José Costa. Atual GR da Académica que me prestou o seu contributo valioso vindo de quem executa e trabalha no duro todos os exercícios e já foi treinado por vários treinadores e GR.

Fala então da sua experiência e visão sobre o treino específico que tem vivenciado e crítica construtivamente as mentes de todos nós.

O treino de Gr , na minha opinião é uma peça fundamental para o nosso bem estar na baliza. Na minha opinião deve ser usado para trabalhar o guarda-redes no seu total, ou seja,  tudo o que engloba o jogo em si. Nada deve ser descorado. Trabalhar desde as técnicas base, jogo de pés, situações em que o guarda-redes tem de ser corajoso e posicionamento. Um guarda-redes não pode ser apenas bom tecnicamente, porque isso todos podem ser, com mais ou menos trabalho, tem de ser corajoso e estar sempre bem posicionado e adaptar-se a cada situação. Esse sim para mim é o segredo dos melhores e uma das partes em que o treino de guarda-redes devia incidir mais e, na minha opinião, isso não é tão trabalho como devia ser”

Todos nós enquanto treinadores temos uma mentalidade pré definida. A maneira como gostamos de trabalhar. Mas não será inútil trabalhar sobre uma ideia, filosofia/metodologia cujo GR não se sente à vontade e consequentemente ao invés da evolução regista-se um downgrade na performance? Não será a adaptabilidade algo necessário a toda à hora neste profissão?

Devemos calcular tudo , dar e receber feedback sobre tudo, não só sobre o jogo mas sobre o treino o lado humano e tudo quanto implica o treino. Sao meses de trabalho diário com os mesmo atletas. Com a mesma estrutura, junto com os nossos a trabalhar.o melhor possível para o bem do conjunto e não somente do individual.

Acredito muito na minha maneira de trabalho e penso grande quando trabalho , porque não me quero limitar a não sofrer. Quero que os meus GR  não sofram, que façam uma boa exibição, que não dêem indicadores de pressão. Quero seguir a minha linha de pensamento: ECS. Evolução específica. Competição com performance ideal. Chamada a Seleção. Contudo adaptação as realidades é sempre necessária e a nossa vida faz disso mesmo um exemplo enquanto profissionais das balizas.

“O treino de gr é indispensável.”  Miguel Santos ( Gr profissional – Fortuna Sittard )

Miguel Santos é outro exemplo de superação. Outro exemplo de guardião que sempre experienciou treino específico desde novo e treino com qualidade. Treino já da nova escola com ideias e bases assentes sobre todos os aspectos que são precisos para o sucesso dos atletas. Passou pela escola dos postes encarnada e trabalhou com vários técnicos que marcaram a sua personalidade e também o seu estilo de gr.

“Não gosto de focar ninguém em especial, mas trabalhar com Fernando Ferreira e Ricardo Pereira sobre a orientação de Hugo Oliveira foi muito enriquecedor. Não me esqueço também de Marco Tábuas, onde os meus ganhos foram mais feedbacks de quem teve uma excelente carreira nacional.

São pequenos detalhes que fazem a diferença. E toda a vivência que se ganha na vida de guardião embora que curta reflete se depois na vida de técnico. E tem surgido uma nova onda de interesse sobre o treino específico e cada vez mais se encontra treinadores de guarda-redes com idades inferiores a 30 anos e a realizar óptimo trabalho junto dos clubes, estes que por sua vez também cada vez mais deixam de prescindir de um Homem para se encarregar dos corajosos entre os postes.

Acho que fazia muita falta alguém, ou um grupo de pessoas que tenha uma ideia bem definida e que funciona também bem com é aquela que existe hoje em dia. A diferença começa a notar se no guarda redes português.

A confiança

É a parte da relação Treinador-Jogador mais importante. Costumo dizer que em treino eu vou dar tudo em conjunto com eles, trago a melhor planificação, os melhores exercícios, a melhor visão da minha ideia para transpor em campo , mas no domingo eles tem de dar tudo por mim. É a confirmação da nossa confiança. Todo o trabalho desenvolvido se encerra no domingo. A cada domingo que passas, mais um capítulo se fecha. E a nossa ligação tem de ter tudo. Emoção, crítica, critérios, paixão e sobretudo justiça. A confiança para mim é isto tudo. Somos todos um enquanto GR. O conhecimento do treinador aliado à performance do atleta resulta em sucesso se é só se a confiança existir.

“A capacidade de fazer o Guarda-Redes confiar e acreditar em nós! Sem isto nada feito! É um trabalho que não passa apenas pela nossa competência técnica, passa também e muito pela nossa competência humana e relacional. Quantas vezes Treinadores com mais conhecimento que outros não conseguem extrair dos seus Guarda-redes todo o seu potencial de rendimento???? “ Ricardo Pereira

Fecho assim mais um artigo meu ,agradecendo a todos os colaboradores pelos contributos e pelas conversas. Pela disponibilidade e sobretudo por partilharem de uma forma cordial algo muito pessoal. Agradeço a todos e espero que gostem. Lembrando que a vida de treinador de gr é diferente e intensa. Sintam pois o futebol “é um momento”.

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