O Futebol tem estado em constante desenvolvimento ao longo dos últimos anos, e com isto surge também a necessidade de uma mudança por parte dos Guarda-Redes. Podemos constatar que no futebol moderno, o Guarda-Redes deixou de ser o jogador solitário a quem só cabia a missão de defender a baliza, limitando-se a estar dentro da sua área mesmo quando a bola se encontrava no terreno do adversário. Nos dias de hoje, ele é muito mais que isso, ser Guarda-Redes é ser o primeiro homem a iniciar a construção de jogo, é ser um jogador que se movimenta nas costas da defesa, tendo obrigações táticas para o equilíbrio das ações defensivas da equipa, no fundo é o libero dos tempos modernos.
Se antes o treino de guarda-redes era encarado como sendo um treino de remates à baliza por um dos treinadores adjuntos, nos dias que correm surge cada vez mais uma valorização e aposta em treinadores qualificados na área que planeiam o treino com necessidade de integrar as condicionantes da performance em jogo, para não desagregar os domínios complementares do jogo (táctico, técnico, psicológico e físico), o que faz com que o Guarda-Redes consiga melhorar fisicamente (força explosiva, velocidade específica, entre outros), bem como repetir gestos técnico-táticos e tomar decisões em treino para as encarar na competição.

Porém para Hodgson “ser um grande guarda-redes, tal como em outras disciplinas desportivas, está fora do alcance de qualquer um. Ser um bom guarda-redes é uma rara e admirável combinação de qualidades improváveis. Ainda assim há quem acredite que qualquer um pode sê-lo”.

É aqui que o treinador se assume como principal responsável. Mesquita (1991), acrescenta que a intervenção pedagógica do treinador condiciona a atividade do atleta, exercendo um papel decisivo na sua formação. Segundo Oliveira (2009), o treino de Guarda-Redes à imagem do jogo, deve ser feito, criando situações semelhantes às do jogo, obrigando o Guarda-Redes à tomada de decisão e à realização de perfeitas ações técnico-táticas, sendo que a sua concentração está sempre a ser trabalhada. Ou seja, para tudo isto ser implementado em jogo, o treino deverá ser uma prática sistemática, com o objetivo de criar hábitos, através de múltiplas repetições em vários contextos de jogo. Para Faria (2002), “o hábito é um saber fazer que se adquire na ação, ou seja, tu aprendes a fazer qualquer coisa a partir da ação que estás a realizar. E agora essa ação, que tu sabes, à partida, que o jogador sabe fazer, sabe jogar mas o que se torna importante é orientar esse jogar para um determinado objetivo”.
Para tudo isto, Guarda-Redes de futebol necessita de um treino complementar, diferente dos seus colegas jogadores de campo, visto ser o único elemento da equipa que, dentro da grande área, pode jogar a bola com as mãos e pelas características singulares das ações específicas no jogo que compõem os seus níveis de performance. Contudo, os treinos específicos devem ser qualitativos e quantitativos, mas não em excesso, para que o processo evolutivo do atleta seja levado a bom porto.

Sainz de Baranda (2003) afirma que, o Treinador de Guarda-Redes deve planear sessões com um grande volume de tarefas e com grande quantidade de estímulos que melhorem os processos de perceção e de tomada de decisão, principalmente estímulos semelhantes ao da própria competição, incluindo a necessidade de integrar a formação biológica, teórica, psicológica e física dentro das sessões de treino.

O objetivo final neste processo de treino do Guarda-Redes, será a otimização de uma correta execução de cada gesto, conseguir uma automatização do mesmo e que o tempo de reação que precederá a decisão da ação a realizar seja mínimo. Todo este trabalho específico será complementado e terá como base uma análise criteriosa, por parte do Treinador de Guarda-Redes e restante equipa técnica, do desempenho do Guarda-Redes através das suas ações em jogo, portanto, a análise da ação e participação do Guarda-redes na competição, definirá as chaves para planear as tarefas que assegurem um trabalho onde se desenvolvam situações mais semelhantes à lógica interna do futebol (Sainz de Baranda & Ortega, 2002). Podemos entender que só uma descrição detalhada e pertinente da ação do Guarda-Redes em jogo pode formar a base e o sustento dos treinos para que determinados erros sejam eliminados e haja assim, um maior rendimento do jogador na competição.

José Sampaio – Treinador de Guarda-Redes União Nogueirense F.C.
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