O par de luvas a mais!

O futebol , enquanto tradição , foi ao longo dos anos sofrendo muitas alterações e cada vez mais neste mundo fora temos amantes deste desporto com cada vez mais conhecimento em diversas áreas que hoje em dia se podem por à disposição do mesmo intuito. O intuito da evolução.

Os académicos como vulgarmente são apelidados trouxeram então consigo todo um vasto leque de conhecimento que permitiu ao longo da última década uma evolução abrupta numa realidade cada vez mais exigente como por exemplo a nível físico. Não diferindo em nenhum aspecto nos homens das luvas. Que a meu ver tem sido das evoluções mais específicas e mais rápidas em termos de treino, de novas tecnologias e alternativas ao treino simples e fraco de remate livre.

Cito aqui o Treinador Nuno Monteiro : “ Pensar para jogar. ” e nunca fez tanto sentido neste contexto. Nunca foi tão preciso um guarda-redes ,como agora, pensar tanto o jogo. Não me refiro a adivinhar lados nem teorias que podem muito bem ser exploradas. Mas sim pensar e antecipar os cenários possíveis. Na cabeça deles já tem opções para todo o tipo de acções. Prestaram atenção aos indicadores dos adversários… Já se posicionaram corretamente e estão preparados para “matar aquela bola na mão” . No entanto para nós, Treinadores de Guarda-redes, o pensar para jogar é uma máxima. Temos de igual modo antecipar contextos , temos de organizar os treinos conforme os objetivos e diversos fatores que condicionam todo o tipo de ações genuínas. Há que pensar. Há que analisar. E por fim executar.

Para vocês guarda-redes no ativo, para vocês amantes das balizas e defesas em cima da linha mas sobretudo para vocês Treinadores e caros colegas , aqui vai o meu artigo preparado com toda a honestidade que em mim reside. Com contributos sobre diversos temas, dados quer por Treinadores de Guardiões, quer por Guarda-redes profissionais e com a minha crença imposta, apresento “ o par de luvas a mais.”. Artigo somente dedicado à vida de quem está na sombra dos talentosos atletas que fazem da vida a negação da felicidade dos avançados, ou por outro prisma , fazem da vida a felicidade em defender o que é deles e somente deles, a baliza.

Quem somos nós afinal?

Não existe para mim uma definição exata do que fazemos nem do que somos , até porque nos considero a nós guarda-redes e treinadores, pessoas especiais. Não há ninguém que sinta o que nós sentimos.

Somos então uma espécie incompreensível e incompreendida. É raro o miúdo que vê em Buffon um ídolo e quer ser como ele desde novo. Vivemos na geração dos avançados. Dos Messis e Ronaldos desta vida. Nada contra é claro. Mas desde cedo sabemos bem que quando somos guarda-redes, somos diferentes e somos tao felizes. Fazemos parte de um mundo distinto que é raro alguém de fora compreender. Temos um compromisso inviolável e jamais o iremos quebrar.

Na vertente de treinador é algo semelhante. Somente muda a visão do jogo. Ver de fora um alteta brilhar não é menos nem mais do que já sentíamos ao jogar. Realiza-nos o sucesso dos nossos guardiões. Enchemos-nos de orgulho acerca dos detalhes e pormenores de “x” ou “y” defesa e vamos pensar nisso o resto do dia porque isso motiva nos ainda mais. Porque muitas vezes vibramos muito mais com uma defesa que sabemos que na semana de trabalho estava a ser difícil conseguir sacar certo tipo determinado movimento e em jogo a superação provou que somos capazes. Somos nós pela persistência e os grandes guarda-redes pela destreza e evolução que apresentam.

Somos nada mais nada menos do que estimulantes. Eu vejo isto desta maneira.

As dificuldades

“Acho que a palavra dificuldade está associada ao treinador de guarda-redes, porque é uma função realmente difícil, não é para qualquer um.”  Pedro Cardoso ( Amora FC)

Todos nós sabemos perfeitamente que  a nossa função é difícil e tem muitos fatores a condicionar toda a nossa visão própria mas no entanto algo nos move perante as dificuldades, esse algo é a paixão.

Embora a paixão e a motivação que tenhamos a todo o momento cai por terra. Somos menosprezados muitas vezes. Temos pouco espaço para trabalhar e quantas e quantas vezes vais com uma ideia de trabalho para a tua ut e não tens tempo para a cumprir. Quantas e quantas vezes precisas de certo material mais específico e não tens simplesmente nada disso no clube.

” (…)mas as condições de trabalho deixavam muito a desejar, cheguei a levar material que tinha em casa para conseguir cumprir com o que tinha planeado para a minha unidade de treino.” Pedro Cardoso

Somos além da margem. Somos adaptadores natos. É isso a que nos obrigam a ser…inventores..a puxar pela cabeça e em pequenas fracções de segundo mudar tudo o que tinhas previsto para adaptar ao tempo e ao espaço mas só com um pensamento: em função deles. Em função do benefício dos nossos guardiões. Apenas e só no agora. Dar-lhes os melhores estimulantes possíveis acompanhados de pequenas dicas e correções.

“Se eu não mudar hoje, todos os amanhas serão iguais” André Rocha ( Cova da Piedade Sub 17)

O resto é provado em campo. Mas para mim , apesar das dificuldades, quero ter a consciência tranquila que dei tudo pelos gr nessa semana de trabalho e que a qualquer momento , jogue quem jogue, tenho todos preparados para assumir a posição da ingratidão. É claro que é diferente quando se trabalha na formação ou no futebol senior.

Em todos os contextos encontrei diferentes dificuldades e estando longe do futebol profissional tudo se complica.” Pedro Cardoso ( Percurso : Peimari United, CF “Os Belenenses” Sub-15, Amora FC Seniores)

Mas as bases estão lançadas. O importante ao fim do dia é colher os frutos e analisar os erros porque depois temos de colmatar com mais trabalho, mais paixão e mais adaptabilidade!

  • Ivan Moreira , Parte 1
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