1. a) Formação enquanto GR

– Porquê ser GR? Desde que idade começaste a prática?

Bem, na verdade tudo começou de forma inesperada. Eu tinha 6 anos e até então tinha experimentado alguns desportos, mas nenhum me agradou. Até que o meu pai, como adepto ferrenho do Benfica tal como eu sempre fui, decidiu colocar-me na geração Benfica, as escolinhas do Benfica. Até que passado um ano de treinos como jogador de campo, houve um treino de finalização em que era preciso um guarda-redes. Como ninguém se voluntariou, eu decidi ir para a baliza porque até já me tinham dito na escola que eu tinha jeito e eu até gostava da ideia. No final do treino um dos diretores da geração Benfica, o Mister Fonte Santa, veio falar comigo e com a minha mãe, e disse que eu ia passar a ter treino especifico de guarda-redes e ia fazer parte daquilo a que o Benfica chama de Seleção da Geração Benfica. E foi aí que tudo começou, aos 7 anos de idade comecei a especializar-me na posição de guarda-redes. Hoje em dia é aquilo que mais gosto de fazer, e honestamente não consigo imaginar a minha vida sem estar à frente de uma baliza.

– Como foi a passagem por um clube grande (SLB) em tenra idade? Como lidaste com a exigência?

A passagem pelo Benfica foi muito marcante. Maior parte das minhas bases como jogador vieram dos meus anos no Benfica. Aprendi muito como guarda-redes e de certa forma moldou a minha personalidade também. A exigência é muito grande logo aos 7 anos de idade. No Benfica não só se formam jogadores, formam-se também homens e eu acho que o Benfica faz um muito bom trabalho nesse aspeto. Existe exigência nos treinos, nos jogos, nas deslocações, tudo. Mas ter que lidar com essa exigência em tão tenra idade fez com que eu adquirisse muitos dos valores que tenho hoje.

– O que sentiste ao não continuar no Benfica? E porque é que achas que não continuaste?

Eu joguei no Benfica dos 6 anos até aos 14 anos, foram 8 anos de muitas vivencias. Eu não sabia o que era estar noutro ambiente sem ser o Benfica, e a ideia de sair foi algo assustadora. Lembro-me bem do dia em que me comunicaram que ia ser emprestado, em poucos segundos revivi todos aqueles anos passados naquela casa. No entanto, vi aquilo como mais um desafio e assim que sai do Centro de Estágios, foquei-me em trabalhar para voltar.

Eu já refleti muito sobre o motivo da minha saída. Eu tinha 14 anos e fisicamente ainda não tinha dado aquele “salto” como se costuma dizer. Estava algo atrasado no crescimento em relação a alguns dos meus colegas, e também em termos de maturidade como guarda-redes. Eu sempre soube que não ia ser um guarda-redes muito grande, e naquela altura eu estava demasiado baixo para a “media” de altura de um guarda-redes, e acho que esse foi o motivo numero um. E por isso os responsáveis do Benfica decidiram que era melhor eu ter uma época de empréstimo no escalão de Iniciados A. No final dessa temporada, ao serviço Belenenses, fui chamado de volta ao Benfica para a realizar a pré-época. Fiz uma semana de treinos, e toda a gente, desde jogadores a treinadores achavam que eu ia mesmo continuar no Benfica pois estava um guarda-redes diferente, mais desenvolvido. No entanto alguns dos treinadores não viram dessa forma, e decidiram que eu não seria mais uma aposta válida e que deveria procurar clube e continuar a lutar pelo meu sonho

– Resumo de como foi o resto da tua formação em Portugal (Belenenses, Casa Pia, Real Massamá).

Nessa época em que fui emprestado, fui para o Belenenses, e foi um ano muito marcante pois foi o primeiro ano fora do Benfica. O choque foi muito grande, em termos de qualidade dos jogadores, métodos de treino e instalações. As diferenças são muito grandes mesmo, mas considerei a época muito positiva para mim. Depois veio a época de juvenis B, onde eu tive um convite para integrar a equipa de Juvenis A do Casa Pia que disputariam o campeonato nacional desse escalão, embora eu ainda fosse juvenil B. Depois seguiu-se o regresso ao Belenenses para os Juvenis A, campeonato nacional também, numa época em que tínhamos uma boa equipa, mas acabamos por ter uma época bastante complicada. Depois veio o primeiro ano de Júnior, ao serviço do Real Massamá, o meu último em Portugal. No meu ultimo ano de Júnior já tinha tudo acertado para integrar uma equipa da 1ª divisão nacional, mas apareceu a oportunidade de vir para os E.U.A e não pensei duas vezes.

– Formação em termos de treino de GR – o que achas da qualidade do treino nacional tendo em conta a tua experiência pessoal? Quais os treinadores de GR que te marcaram?

Posso dizer que o treino de guarda-redes em Portugal tem evoluído muito na ultima década. No Benfica, por experiência própria, o treino de guarda-redes é muito bom. Especialmente quando comparado com os outros clubes mais pequenos. No entanto os interessados no treino de guarda-redes têm vindo a crescer e hoje em dia já encontramos alguns treinadores de GR em equipas mais pequenas, com muito boas ideias.

Todos os treinadores me marcaram de certa forma, cada um com os seus próprios métodos. Uns em que senti que evolui mais que outros também. No entanto o que mais me marcou, foi o meu primeiro treinador de guarda-redes, Manuel Bento. Não só por ter sido a mítica figura na baliza do Benfica e da Seleção que todos nós conhecemos, mas também por ter sido uma pessoa incrível e um treinador fantástico. Acho que ele nem sabia o meu nome, nunca perguntou, apenas me chamava “ passarinho amarelo” por eu ser loiro e por voar muitas vezes, nunca me esqueço.

– Como vês nos dias de hoje ter sido colega do Renato Sanches ou João Carvalho? Serve como motivação?

É uma tremenda motivação. Costumo falar com o João por vezes e tento-lhe sempre mostrar que mesmo longe, continuo a acompanhar e a vê-lo como uma grande motivação, é um jogador tremendo, desde tenra idade o foi. O Renato é a mesma coisa, lembro-me por exemplo na final do Euro recentemente, até fiquei arrepiado quando me lembrei que aquele rapaz que estava a levantar a taça, partilhava o balneário e o quarto de hotel em torneios comigo há apenas 4 anos atrás, é incrível. A geração de 97 sempre foi muito forte e prova disso é que muitos dos meus colegas da época de iniciados do Benfica estão hoje na equipa B do Benfica! Cerca de 8 senão me engano. E outros tantos em outros clubes nas ligas de topo em Portugal.

 b) Ida para EUA

– Como surgiu a oportunidade de ingressar nos EUA?

No inicio da minha época como júnior de primeiro ano, os meus pais contaram-me que tinham visto algo sobre uma empresa que levava jogadores para os estados unidos para estudar e jogar pelas faculdades. Eu achei interessante e decidi tentar a minha sorte, num treino de captação na Next Level, a única empresa em Portugal que faz este tipo de serviço. Infelizmente não passei, mas não desisti. Entrei mais tarde numa espécie de rede social, onde os jogadores têm o seu próprio perfil com informações e vídeos de melhores momentos, e os treinadores das faculdades vêm os perfis. Para completar o perfil, o meu pai teve que gravar vários treinos e eu tive que fazer o vídeo e contactar as faculdades uma a uma, sem a ajuda de uma empresa. Quando já não tinha muita esperança neste processo, em Fevereiro surgiu um treinador muito interessado que me ofereceu uma bolsa parcial para eu jogar e estudar nos Estados Unidos. Era a oportunidade perfeita para conciliar os estudos e o futebol, o que seria muito complicado em Portugal.

 

– Principais diferenças e semelhanças ao nível da cultura; Adaptaçao a um novo país

As culturas não são assim tão diferentes. Claro que começar a viver sozinho, num novo pais, é um passo muito grande, mas felizmente consegui-me adaptar bem. A comida é muito diferente mesmo. Aqui é tudo à base de fritos e “fast-food” e ao fim de algumas semanas começa a ser enjoativo e a saudade de um bom bife ou um bom peixinho começa a apertar. No entanto todas as pessoas são muito simpáticas e de facto essa é uma das características da população do estado em que estou atualmente.

 

– Como se processam os campeonatos universitários nos EUA para os portugueses terem uma melhor noção de como se organizam as provas

Aqui nos estados unidos não existem os chamados clubes formadores. As equipas profissionais não têm campeonatos na formação. Os jovens jogadores jogam pela escola secundária ou numa academia de futebol até terminarem o secundário, depois têm 4 anos de faculdade, equivalente à licenciatura em Portugal e depois seguem para as equipas profissionais ou não. Ao nível universitário existem 5 tipos de competições, dos quais as equipas em condições normais não podem ser promovidas/despromovidas, as universidades são fixas nas competições:

NJCAA- É o campeonato onde eu joguei nos últimos dois anos e tem a particularidade de só ter faculdades de “dois anos” o que significa que apenas têm os dois primeiros anos da Licenciatura. Ao final de dois anos, os atletas têm que se transferir para uma faculdade que tenha os 4 anos de licenciatura

NCAA- É dividida em 3 divisões. Aqui só jogam faculdades de “4 anos”.

A divisão 1 é a divisão mais popular e de onde saem a maior parte dos jogadores para o draft da MLS, e para outras equipas profissionais. São faculdades muito grandes com muito dinheiro. Têm muitas restrições de idade e de jogadores internacionais.

Depois temos a divisão 2 desta associação, onde temos faculdades muito boas também, mas com menor popularidade e menor poder financeiro, é a divisão com mais internacionais porque não há restrições de jogadores internacionais ou de idade.

A divisão 3 é a “pior” das 3 divisões, com faculdades que não apostam muito no desporto.

NAIA- É o mais recente campeonato, e conta com faculdades com muito poder financeiro também. No entanto tem muito menos popularidade comparando com a divisão 1 da NCAA.

Se tivéssemos que por numa ordem hierárquica seria desta forma:

NCAA D1(4 anos)

NCAA D2/NAIA(4 anos)

NJCAA(2 anos)

NCAA D3(4 anos)

– Em que clubes jogaste nos EUA e o que achas da tua prestação e adaptação a uma nova realidade competitiva.

Até agora eu fiz 2 anos na faculdade Marshalltown Community College, parte da NJCAA. Como disse, é uma faculdade de 2 anos e por isso vou ter que me transferir no final deste semestre para uma outra faculdade.

Felizmente, as expectativas foram excedidas quer individualmente, quer coletivamente. O nível de guarda-redes aqui ainda está relativamente baixo, e eu felizmente consegui criar um bom impacto em termos nacionais.

O futebol é algo diferente aqui, é mais físico e menos organizado. No entanto a minha equipa tinha mais de 15 jogadores internacionais, vindos de Espanha, Brasil, Japão, entre outros. E por isso o futebol que praticávamos era algo diferente do futebol das outras faculdades com mais jogadores americanos.

– Como avalias a tua prestação nestes anos

Como disse, felizmente as duas épocas correram muito bem. A equipa foi nos dois anos à final regional, e individualmente recebi o reconhecimento que nunca tinha recebido em Portugal. Aqui eles premeiam o esforço e o mérito e isso motiva muito os jogadores. Temos premio de jogador da semana, equipa regional do ano e equipa nacional do ano, entre outros prémios. Isso infelizmente não acontece em Portugal.

Individualmente, ganhei o premio All-American(equipa nacional do ano) nos dois anos, o premio da equipa da região também nos dois anos, e fui nomeado 8 vezes jogador da semana na minha região. Consegui também deixar uma marca nesta faculdade como o guarda redes com mais jogos sem sofrer golos, 20 jogos em 41 jogos.

– Como é o treino de GR que tiveste oportunidade de experenciar nos EUA? Quais as diferenças na metodologia de treino?

Nestes dois anos tive a sorte de ter um treinador de GR americano que tinha alguma experiencia na posição e que tem um curso de treinador de GR. O foco cai muito sobre a intensidade do treino e menos na técnica. As faculdades da divisão 1, têm uma estrutura já muito próxima à estrutura profissional, com muito dinheiro mesmo e muito boas condições e por isso têm treinadores de GR com muitos bons métodos. No entanto ainda considero que se encontra muito abaixo do nível Português.

– Perspectivas de Futuro principalmente

No próximo ano vou me transferir para uma faculdade de 4 anos, parte da NCAA Division 1 onde vou jogar contra os melhores jogadores do país. A Rutgers University é uma das faculdades mais conhecidas a nível de desporto nos Estados Unidos, onde as equipas profissionais vão constantemente recrutar. Vai ser uma nova experiência e estou muito entusiasmado por começar. O objetivo é fazer mais 2 anos nessa faculdade, ter a minha licenciatura e tentar seguir uma carreira profissional na MLS ou nas outras duas divisões profissionais aqui nos Estados Unidos. Mas isso são tudo planos, muita coisa pode acontecer, e quem sabe volte a jogar em Portugal, embora honestamente ache difícil.

–  Obrigado por teres aceite este convite!

 

Obrigado eu pela oportunidade e pelo reconhecimento, por parte de uma página que eu gosto bastante e de perto acompanho!

 

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