O seu nome é Hugo Ribeiro é o atual treinador de guarda-redes do Sport Lisboa e Benfica no escalão de Iniciados que na época 2015/16 conquistaram o campeonato nacional da mesma categoria. Hugo, já passou por clubes como o Vitória Futebol Clube de Setúbal e mais recentemente pelo Sport Lisboa e Benfica, pelo meio desempenhou tarefas de prospecção, e em função do seu percurso e experiência, decidimos entrevistá-lo para saber mais sobre o treinador de guarda-redes e o profissional que é.

 

Frederico Hilário: Olá Hugo e obrigado por teres aceite este nosso convite. Gostaríamos de começar por saber o porquê de seres treinador de guarda redes? O que te levou a pensar que podias seguir este caminho?

Hugo Ribeiro: Obrigado pelo convite e é uma honra poder estar aqui a falar para a Última Barreira. O gosto pelo treino de Guarda-Redes começou muito cedo. Desde que me lembro de ver Futebol que sempre tinha curiosidade de ver “aqueles tipos” que equipavam diferente dos outros e que faziam coisas diferente dos outros jogadores, e isso sempre me fascinou, apesar de nunca ter sido Guarda-Redes ou Jogador Federado.  Depois disso, e a partir do momento em que comecei a ver futebol com um maior gosto e conhecimento pelo Jogo, desenvolvi ainda mais esta minha grande Paixão que são os Guarda-Redes e todo o que está relacionado com eles, desde o seu treino específico até à sua integração na equipa.

F.H: Quais os clubes por onde já passaste (em que época e durante quanto tempo)?

H.R: Iniciei o meu percurso de Treinador de Guarda-Redes (TGR) no Vitória Futebol Clube de Setúbal na época de 2002/2003, clube da cidade onde nasci e moro por convite do Mister Fernando Tomé, na altura um dos responsáveis no Futebol Formação, e do Joaquim Mota, o Treinador da equipa de Juniores A (Sub-19). Curiosamente nessa época conseguimos o apuramento para a fase final, antes jogada apenas entre 4 equipas, mas antes de terminar a 1ª Fase o treinador adjunto, o Quim, também ele ex-jogador do Clube, passou a integrar a equipa técnica sénior e como tal tive que assumir as funções de Treinador Adjunto.

Continuei na época seguinte, 2003/2004, com a função de TGR, e na época de 2004/2005, voltei a assumir a função de Treinador Adjunto, porque coincidiu  com a entrada do Pedro Espinha, ex-Guarda-Redes do Clube e atual TGR da FPF, para a função de TGR de todos os escalões da formação.

Na época 2005/2006 iniciei a minha caminhada no SLBenfica, pela mão do Sr. António Luis (Coordenador do Gabinete de Planeamento, Organização e Comunicação) com quem tinha tido o prazer de trabalhar em Setúbal, do Mister Jaime Graça (Coordenador do Futebol Formação) e do Bruno Maruta (Coordenador da Prospecção), caminhada essa que dura até aos dias de hoje. Durante as primeiras 3 épocas, 2005/2006, 2006/2007 e 2007/2008 fui apenas Coordenador do Departamento de Prospecção no Distrito de Setúbal, pelo que não tive qualquer ligação ao Treino de GR.

Na época de 2008-2009, por convite do Renato Paiva, atual Treinador  dos Juvenis A (Sub-17) do SLBenfica, voltei ao treino de Guarda-Redes, a par da Coordenação do Departamento de Prospecção que já tinha, na equipa de Iniciados C (Sub-14), tendo alcançado o título de Campeões Distritais 1ª Divisão. Na época 2009-2010 continuei com as funções da época anterior na mesma equipa, Iniciados C (Sub-14).

A época 2001/2011 foi a minha primeira experiência numa equipa de Campeonato Nacional, Iniciados A (Sub-15), pelo que decidi dedicar-me apenas ao Treino de Guarda-Redes e deixar as funções no Departamento de Prospecção, que considero uma experiência riquíssima e fundamental pelos conhecimentos que adquiri e pela experiência que vivi.

Época 2011/2012, segundo ano numa equipa que participa no Campeonato Nacional, e que terminou de uma forma fantástica  com o meu primeiro título de Campeão Nacional, com uma geração repleta de jogadores talentosos, alguns deles já num patamar profissional, entre eles o Renato Sanches, época essa, brilhantemente liderada pelo Luís Nascimento (atual Treinador dos Iniciados A Sub-15).

Nas duas épocas seguintes, 2012/2013 e 2013/2014, vivi um realidade um pouco diferente. Trabalhar no escalão de Sub-14, 2 equipas que trabalham juntas mas que participam em 2 campeonatos diferentes (I Divisão de Honra e I Divisão).  Na época de 2012/2013 sagramo-nos Campeões Distritais Iniciados B1 (I Divisão de Honra), e na época seguinte, 2013/2014, Campeões Distritais Iniciados B2 (I Divisão).

Na época seguinte, 2014/2015, voltei ao escalão de Iniciados A (Sub-15), que participa no Campeonato Nacional. Uma época muito boa e de grande empenho e evolução de todos, com um excelente campeonato realizado, mas que terminou de maneira muito amarga a perdermos o Título de Campeões no último segundo do prolongamento, já depois da hora…mas isto é Futebol, e faz parte do crescimento de todos nós.

Época 2015-2016, continuei no mesmo escalão, e foi para mim a melhor época que realizei no SLBenfica, novamente (à semelhança da época passada) sobe a liderança do Luis Nascimento. Uma época de sonho, não só pelos Números e pelos registos alcançados, mas principalmente pelo Futebol que praticamos e pelo magnífico Grupo de Trabalho.

F.H: O que te motiva dia a dia a continuar?

H.R: Muito simples. Trabalhar cada vez mais no caminho da excelência e da constante evolução do meus Guarda-Redes, e são eles e o seu crescimento que me motivam, não é diariamente, mas sim segundo a segundo. Penso que mesmo quando ganhamos temos sempre algo que podemos melhorar, e como tal, essa procura desse mudança e evolução para os Guarda-Redes é o que me motiva diariamente, segundo a segundo.

F.H: Como te caracterizas a nível pessoal? E como treinador de guarda redes?

H.R: Considero-me uma pessoa serena, calma e organizada, e isso reflete-se no meu trabalho em campo. Sou muito rigoroso com quem trabalha comigo, e sei que por vezes posso ser um pouco excessivo nesse aspecto, e não é fácil ás vezes lidar comigo (risos), não só sendo rigoroso, organizado e com uma grande vontade de trabalhar e melhorar dia a dia é que podemos alcançar os nosso sonhos.

F.H: Que tipos de exercícios gostas mais de fazer com os guarda redes?

H.R: Este é um tema interessante. Eu não tenho muita preocupação em mudar de exercícios todos os dias, até porque tenho exercícios que os aplico desde sempre, apenas com algumas alterações ao nível dos objectivos e dos que pretendo trabalhar com os vários tipos de Guarda-Redes. Considero que até para uma sistematização do processo de Treino e evolução dos Guarda-Redes, se realizarmos exercícios idênticos com regularidade, penso que os processos de aprendizagem são mais consistentes e rápidos. No entanto, procuro sempre que os meus exercícios tenham algum tipo de tomada de decisão. Isso é o que poderá fazer a diferença no futuro, claro que tiverem bem adquiridos as ações Técnicas e Tácticas sobre o jogo e sobre a posição de Guarda-Redes.

F.H: Como motivas os teus guarda redes durante a época?

H.R: Como já referi, existem sempre alguns aspetos que pudemos melhorar. Como tal, e porque faço análise de vídeo, de jogos e treinos, com regularidade com os meus Guarda-Redes, conseguimos mais facilmente visualizar e eles perceberem os aspectos menos conseguidos e dessa forma, aumentar o foco e rendimento nessas ações. Depois tenho a sorte e o privilégio de trabalhar num Clube da dimensão do SLBenfica, em que a motivação e vontade de evoluir está presente em todos os momentos. Não menos importante a organização e método que temos no Departamento de Guarda-Redes do SLBenfica, “EagleOne”, e as reuniões que temos regularmente faz-nos ver e acompanhar o trabalho de todos os TGR, e como as dificuldades de uns podem ser as nossas também, esta constante partilha entre todos, faz-nos evoluir também e com isso conseguir melhorar alguns aspetos que estejam menos.

F.H: Qual seria o guarda redes que mais gostavas de poder treinar?

H.R: Uma pergunta difícil… Sinceramente se pudesse escolher gostava de voltar a trabalhar com algum dos GR com que já trabalhei, porque todos eles me fizeram crescer e evoluir como TGR. Obviamente tenho a ambição e desejo de chegar ao futebol profissional e como tal, desejo trabalhar nesse nível. Mas se tivesse que escolher, neste momento gostava de trabalhar com o Júlio César, o Ederson e o Paulo Lopes, mas neste momento não é possível, até porque estes GR estão muito bem entregues ao Hugo Oliveira (risos).

F.H: Qual o teu ídolo enquanto treinador de guarda redes?

H.R: Não tenho nenhum ídolo como TGR, e pessoalmente considero que consigo aprender com todos os TGR, desde o que está nos traquinas de um clube de dimensão distrital até ao TGR que ganhou a Liga dos Campeões. Tenho sim alguns TGR que me marcaram e marcam muito, por tudo aquilo que me deram e pelo que me identifico com eles sobre a forma de trabalhar e pensar. Nesse sentido não posso deixar de mencionar o Hugo Oliveira, coordenador do Departamento de GR “EagleOne” que nos trouxe método, organização e nos “obrigou a pensar” cada vez mais. O Luis Matos que foi o primeiro TGR de encontrei no SLBenfica. Em Portugal tenho outras referências como o Jorge Vital, Rui Barbosa, Ricardo Peres e Pedro Espinha, entre alguns. No estrangeiro para referir alguns gosto do método do Frans Hoek, José Sambade Gianluca Spinelli, e  Andrew Sparkes.

 

F.H: O que para ti um guarda redes tem que ter e ser para alcançar o sucesso?

H.R: Como já referi, os aspectos Técnicos, Táticos, Físicos e Psicológicos são todos importantes e deve haver uma grande percentagem de todos, mas para mim o que poderá fazer a diferença entre chegar ao Top ou não acho que será a capacidade de decisão e de tomada de boas decisões. Cada vez mais.

F.H: Qual foi a sensação de fazer parte do lote de treinadores chamados ao estágio da seleção nacional para integrar o projeto 1 da Federação Portuguesa de Futebol?

H.R: Foi uma sensação fantástica, poder ter sido escolhido para esse momento de grande partilha de ideias e formas de trabalhar. Além de nos sentirmos mais “perto” e conhecedores do que se faz na FPF e qual o seu método de trabalho, temos também espaço e oportunidade de falar sobre o método de cada Clube representado e também uma grande partilha de ideias, não só entre a FPF mas também entre os Clubes e com isto a evolução do Treino de GR em Portugal  e principalmente do GR Português.

F.H: Quais as perspetivas para o futuro enquanto treinador de guarda-redes?

H.R: Eu penso que o Treino de GR está a evoluir de uma forma rápida, olhando alguns anos atrás e dessa forma, o TGR vai ter cada vez mais importância e protagonismo, dentro da Equipa Técnica. Acho que vai caminhar para haver mais do que 1 TGR nas equipas profissionais, à semelhança do que já acontece em algumas equipas de Top.

F.H: Para terminar, podes dar alguns conselhos para os guarda-redes e treinadores de guarda-redes que a nível nacional se começam a aventurar por estes caminhos?

H.R: O que digo a quem está a começar a caminhar pelo Treino de GR primeiro é que sejam todos bem vindos. Depois que vejam e falem com TGR mais experientes e procurem novas formas de trabalhar e pensar mas nunca usem o “copiar / colar” mas sim que pensem pelas suas cabeças e que tenham a capacidade de adequar o que vêm à sua realidade, ao seu nível competitivo, e aos seus GR. Do que precisarem de mim estou e estarei sempre disponível para colaborar e ajudar em tudo o que puder e for preciso.

 

Não quero deixar de agradecer de uma forma muito especial a todos os meus colegas, e ex-colegas do Departamento de GR “EagleOne”, a todos os Treinadores com quem já trabalhei e com todos os GR e Jogadores de Campo que tive o prazer de me cruzar, por tudo o que me proporcionaram, o que me ajudaram e o que me fizeram evoluir, com o Treinador de Guarda-Redes e principalmente como Pessoa.

F.H: Obrigado Hugo e em nome da A Última Barreira desejamos-te a maior sorte para o futuro que a nosso ver parece que irá ser risonho.

 

Agradecemos a colaboração:

Sport Lisboa e Benfica

Hugo Ribeiro

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